Desse momento

Desse momento

Em que nossos tons de pele se confundem

E que quase não há palavra

Você segue em mim ainda por uns dias

Mas depois passa

E volto a ser só.

A vontade de voltar a te ver

É mais uma teimosia da cabeça

Que uma necessidade

Porque a lembrança do teu toque

Já vai desvanecendo

E a vontade do teu beijo

É, na verdade, a vontade de qualquer beijo.

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Desobediência?

Texto de Fàtima Aatar traduzido por mim

Dizem que as migrações são um fato natural das populações humanas. Um argumento recorrente erguido contra a xenofobia. No entanto, este argumento bem intencionado previne que a xenofobia e, sobretudo, o racismo não é contra quem migra, mas sim contra um determinado tipo de pessoas que às vezes migra e às vezes não, como seria a população cigana ou as denominadas segundas gerações. Esta lógica não é apenas um arrebatamento das classes populares, mas sim um fato fortemente institucionalizado que no caso espanhol se reflete na denominada Lei de migração.

Muitas pessoas migrantes e racializadas viram na construção da República catalã uma oportunidade para se desfazer dessa Lei que as acorrentava. No entanto, a primeira surpresa chegou quando o censo eleitoral para o referendo não incorporava as pessoas residentes, ou seja, que aquelas pessoas não nacionalizadas pela Lei de migração espanhola também não poderiam exercer o seu (não)direito ao voto no referendo. Mas a grande surpresa se manifestou com a Lei de transitoriedade apresentada ao Parlamento, que também não incorporava as pessoas migrantes. Podemos dizer que durante a redação da Lei de transitoriedade fizeram um copy-paste da Lei de migração espanhola mudando “nacionalidade espanhola” por “nacionalidade catalã”, de maneira que, quem terá a nacionalidade catalã será quem anteriormente já tinha a espanhola. Já é problemático que esta nova República comece o seu caminho excluindo, mas é ainda mais problemático que esta exclusão seja por falta de vontade política. Por isso, me vêm à mente perguntas incômodas, mas que muitos terão pensado: como é possível que em um exercício de desobediência política, jurídica e social não se tenha desobedecido nessa questão em concreto? Por que se escolheu herdar a Lei de migração espanhola tendo em conta que é das questões mais características do regime? Desobediência? Quando e para quem?

Diante da falta de vontade política para mudar tudo, temos que ser radicais e ir à raiz da questão para entender a “problemática”.

E coloco “problemática” porque si olhamos objetivamente não é uma problemática, na verdade é sintomático do sistema capitalista ocidental que se manifesta desde a estrutura global até a local. E aqui assinalaremos uma das questões que a esquerda branca não quis nem entender nem encarar, que o racismo não é uma consequência mais do capitalismo, mas sim que foi e é uma das condições que o fizeram possível. Por isso, dizemos que quando nós percebemos uma questão como problemática, é preciso entender que é inerente ao bom funcionamento de tal sistema e como expressava o pensador antirracista Helios F. Garcés quando dizia que “onde vocês vêem uma consequência do capitalismo, outros olhos vêem um projeto civilizatório destrutivo do qual o capitalismo forma parte; que onde vocês percebem uma crise sem precedentes, outras mentes reconhecem uma Antiga crise genocida, epistemicida, extrativista e colonial que já dura mais de 500 anos”. Sim, mais de 500 anos, por isso apostamos por uma ruptura não com o regime de 78, mas sim com o regime que se perpetua desde 1492 que romperia com o racismo inerente ao Estado espanhol.

É preciso entender, então, que o racismo institucional existe de tal forma que se blinda diante das mudanças políticas, ou seja, sem desobediência não há mudança já que é capaz de se reinventar para manter o status quo. Um destes mecanismos é a impossibilidade de participação política institucional. Sim, é certo que as mudanças não vêm desde as instituições e sim desde as ruas, no entanto, a pressão política só é possível quando há uma oposição forte e unitária. Por isso, a falta de representatividade política leva a que as necessidades das pessoas migrantes não estejam representadas nem defendidas desde o eixo materialista, ou seja, o eixo que se incrusta nos corpos das pessoas, que paralisa a vida de quem o sofre diante do medo e da incerteza deste sistema profundamente racista. É aquele mesmo eixo que sacode as pessoas para que se levantem contra as opressões e conscientes de que para mudar tudo é preciso tomar partido. É por isso que entendemos que a igualdade de gênero se está convertendo em tema transversal prioritário nas políticas públicas, porque as mulheres ocuparam as ruas, sim, mas também as instituições.

Haverá quem pense que agora não é o momento para falar disso, que tendo as forças de segurança encima isso não é importante, mas este estado de exceção, onde os direitos das pessoas deixam de operar ou diretamente não existem, as pessoas migrantes e racializadas o vivemos permanentemente. E é assim, repetindo as coisas até a saciedade, que se começa a introduzir nas agendas midiáticas e políticas para deixar de ser um tema banal. Quantas vezes se banalizaram as causas justas? Mesmo assim, o valor está em não se render.

Por isso, continuaremos nas ruas, fazendo oposição ao racismo institucional que se quer perpetuar na República catalã, não deixaremos que o sistema racista e colonial espanhol se mantenha, porque se não, não teremos criado um processo realmente transformador, nem será uma república para todos. Agora é preciso que vocês tomem partido para que isso deixe de ser uma simples efervescência momentânea e se materialize em uma República realmente para todos.

As malas

Lá vai ela de novo

Puxando as malas pela calçada

Cabelo arrumado e lábios pintados

De cima de seu salto ela segue

Determinada, olhar fixo, costas curvadas

E eu ainda não sei o que ela carrega

Naquele corpo

Te vi

Te vi bajando la calle. Tenías prisa.

Pero luego algo se te pesó.

Y pasaste a caminar más lento, los movimientos eran lentos, la mirada era lenta.

No te dabas cuenta de lo que pasaba en la calle.

No veías la gente, esa que te deja tediado.

Pero tampoco notabas las personas.

Te recordabas algo.

Sonreías, con los ojos cerrados.

Te detuviste un rato.

Sacaste el cigarrillo del bolsillo de tu mono jeans y lo encendiste.

A la esquina, en un café, te sentaste en una mesa en la acera.

Sacaste un libro de la mochila e lo dejaste sobre la mesa.

En la portada se leía Budapest.

No lo abriste, tampoco lo leíste.

Tenías la mirada perdida.

Seguías con la sonrisa en tu cara, la misma que te hace cerrar los ojos.

Volviste al mundo real cuando te preguntaron que querías.

Pero no sé qué pediste, iba retrasada otra vez más.

Oxum em mim

Água que corre
Lenta, vagarosamente
Às vezes tromba d’água, é verdade
Carregando o que tem pela frente
Sem avisar, sem dar tempo
Água que corre, sempre em frente
Mas às vezes pára
Pra descansar
Pra pensar
Porque precisa ficar
Ou porque precisam que fique
E depois segue, sem voltar
Segue ao encontro e sabe exatamente do que
Água que corre, lavando o caminho, tirando os espinhos
Que dá paz à alma, descansa o corpo e arranca a sede
Que faz a sinfonia da calma
Água que corre, que vai se tornando grande
Justamente pelos pedaços que encontra no caminhar
Pedaços dos encontros
De quem é água corrente

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Quelques haïkus

Très sympathique

L’humeur arrive aux gens

C’est temps de printemps

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Son coeur a gardé

Les mots qu’elle n’a pas dit

L’esprit déborde

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Les enfants dansent

Pour imaginer la vie

Que personne n’espere

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À force de maigrir

Elle a disparu

Dans l’imprécision de ses propres pensées

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En regardant par la fenêtre

J’ai décidé de sauter

À la prochaine page du livre

Só vim pra dançar

Ela resolveu ficar na balada sozinha. Não era a primeira vez. Era sexta-feira e, depois de duas semanas de muito trabalho, ela só queria dançar. Os amigos foram pra outro lugar depois que o showzinho de samba acabou, mas ela resolveu ficar porque a DJ que entrou em cena tinha em seus vinis um repertório de funk e soul. Ela não queria trocar aquele som pela playlist do TVZ. Deixou os casacos pendurados perto da mesa onde estava seu mojito. E dançou.

Um tempo depois um italiano, bonito e de barba cerrada chegou, também sozinho, e pendurou seus casacos ali perto. Buscou uma bebida e começou a dançar. O lugar se enchia de gente e os dois estavam ali dançando, sozinhos. Ainda que mal se olhassem e a distância continuasse, de alguma forma se sentiam cúmplices, talvez pensassem “Não sou o único a dançar sozinho”.

Alguns caras olhavam a moça dançando, mas não se arriscavam. Ela já com uma cerveja na mão, dançava, de olhos fechados. “Típico”, diriam as amigas. Um rapaz resolveu conversar com ela. Mas se a aparência já não era atraente, a abordagem era enfadonha. Antes mesmo de querer saber seu nome, perguntou se ela estava sozinha, com um ar de espanto.

No meio da noite, um indiano que mora em Londres, chegou, muito bem vestido, com um grupo de amigos. Eles também só queriam dançar. E, por isso, dançaram com ela. Sem fazer qualquer pergunta. Apenas dançaram. O italiano continuava ali perto, dançando. Às vezes saía, dava uma volta e retornava. O rapaz inconveniente foi se despedir da moça. Achou ruim que ela não deu seu número de telefone e disse “Você é muito bonita para estar sozinha”. Já na terceira cerveja, ela não conseguia entender qual era a lógica naquela frase.

Depois de um tempo, o italiano pega seu cachecol e com um sorriso se despede da moça, ela se aproxima e ele explica que sua namorada o está esperando em casa (ao menos é nisso que ele acredita). Antes de continuar a se vestir ele pergunta se eles podem dançar juntos uma última música. E dançam. “E por que sua namorada não veio?”, perguntou. Eles haviam brigado. “Precisava sair de casa para arejar a cabeça”. Ele mora naquela cidade há seis anos, mas disse que já estava cansado de lá.  De fato, Alberto tinha o semblante cansado. Eles se despediram.

Ela continuou dançando e depois seguiu caminhando pela rua movimentada até o ponto de ônibus, meio bêbada, meio realizada, meio satisfeita e meio dormindo, com medo de perder o lugar certo de descer. Na cabeça martelava: Mulher sozinha não pode se divertir? Ou mulher não pode se divertir sozinha? Mulher não pode.

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