A internet para algumas pessoas

Como eu esqueci de escrever no texto anterior, vou deixar pra este post os exemplos do alcance que a internet pode ter, a partir dos projetos que eu paticipo. Bom que não preciso pensar em nenhum assunto pra manter o blog atualizado. Vamos lá:

1-      Bom, no último dia 1º a Web TV Magnífica Mundi (Projeto de Extensão da Faculdade de Comunicação e Biblioteconomia da UFG) fez mais uma transmissão ao vivo de programas produzidos e realizados por estudantes. Com a qualidade da transmissão não tão boa assim (mas melhor que a web TV do FICA, pelo menos), alguns programas conseguiram ter a audiência de 25 internautas. Muitos podem pensar: pouca gente. Mas pelo menos foram 25 pessoas que deixaram de ver ou acessar qualquer outro conteúdo pra assistir programas com propostas de conteúdo diferentes. 1 ponto para a internet. (www.facomb.ufg.br/magnifica)

2-      Outro projeto é o Trombas e Formoso: a vitória dos camponeses, sobre uma revolta ocorrida no norte de Goiás na década de 50, em que os camponeses conseguiram o título de suas terras. Colocamos o site (www.trombaseformoso.com) no ar em dezembro do ano passado para apresentar no Trabalho de Conclusão de Curso. Poderíamos ter parado de pagar (16 reais de mensalidade, sendo que alguns domínios são gratuitos) e deixado o site fora do ar, afinal nem sabemos quantas pessoas acessam nosso trabalho. Mas resolvemos deixá-lo no ar. Nesse ano o bisneto do José Porfírio, um dos líderes da revolta, nos enviou um email parabenizando nosso trabalho e dizendo que não conhecia a história de seu bisavô e que ia procurar saber mais sobre ela. 2 pontos para a internet.

3-      Algum tempo depois a neta do Geraldo Tibúrcio, outro participante da revolta, nos mandou um email dizendo que tinha uma foto de seu avô (que estava faltando no site) e também uma carta que ele tinha começado a escrever antes de morrer. 3 pontos para a internet.

4-      Por último, um professor da rede estadual da cidade de Bonfinópolis pediu que seus alunos acessassem o site da revolta para que eles pudessem debater essa parte da história de Goiás. Fomos convidados para explicar como foi o processo de construção do site e do documentário que fizemos (que também está disponível no site) a partir da história oral dos sobreviventes. Nos deparamos com 35 alunos do 3º ano do Ensino Médio que prestaram atenção na nossa fala que durou duas horas, perguntando sobre o site, a revolta, a ditadura e sobre as pessoas que conhecemos, surpreendendo nossas expectativas. Mais um ponto para a internet.

Bem, só queria mostrar mais alguns aspectos sobre a internet para enriquecer a reflexão.

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A internet para uma pessoa

Às vezes fico pensando no argumento das pessoas que não acreditam na internet enquanto ferramenta mais democrática de acesso a informações. É bom deixar claro primeiro que a internet não é uma realidade na vida de muuuuitas pessoas. Mas é fato que ela é mais acessível hoje que há alguns anos. Além disso, a internet está presente em cidades onde não há nem teatro, nem cinema. Se tornando assim uma opção de lazer para muitos brasileiros.

Agora voltando ao argumento das pessoas que citei no início, elas acreditam que a internet não é um meio democrático porque as mesmas grandes corporações que dominam televisão, cinema, rádio e jornais também estão na internet (concordo) e que ainda é muito maior o número de pessoas que vêem esse material do que o das mídias alternativas, por exemplo (também estou de acordo).

Mas aí eu me pergunto. O que é mais fácil: conseguir a concessão de uma rádio, canal de televisão ou um espaço no jornal pra colocar um texto seu ou criar um blog, um canal no youtube, um perfil em algum site como twitter, Orkut, facebook (e tantos outros)?

Aí podem me perguntar: mas quantas pessoas vão ver o que você está mostrando? Eu respondo: não importa! Uma pessoa que seja já é o suficiente. Uma pessoa que teve acesso, viu e com certeza vai levar alguma coisa disso. Essa pessoa pode também mostrar para outras que também vão levar alguma coisa do que viram e por aí vai.

É por isso que não concordo quando dizem pura e simplesmente que a internet não é democrática. Ela não é perfeita, muitas coisas estão por trás dessa poderosa ferramenta. Por isso a necessidade de uma política pública que democratize o acesso a ela.

Mas o debate é mais complexo que isso, aqui foi só um pequeno texto pra dar início a uma reflexão.

“O conhecimento pertinente deve enfrentar a complexidade. […] Os desenvolvimentos próprios a nossa era planetária nos confrontam cada vez mais e de maneira cada vez mais inelutável com os desafios da complexidade.” Edgar Morin – Os sete saberes necessários à educação do futuro

A tradição secular de descendentes dos escravos

Fim da Aldeia Multiétnica, início da programação do Encontro de Culturas Tradicionais em São Jorge. Na sexta-feira, cerca de oitenta pessoas chegam à Vila para representar a comunidade Kalunga, das cidades de Cavalcante, Teresina de Goiás e Monte Alegre de Goiás. Homens, mulheres e jovens vão mostrar um pouco da Folia do Divino Espírito Santo e do Império Kalunga, festas típicas da região, cujo nome significa “lugar sagrado, de proteção”.

No sábado pela tarde, cerca de dez mulheres se reúnem para fazer a decoração da festa, das varas usadas no Império, das coroas do Imperador e dos anjos, além da bandeira do Divino Espírito Santo. Cola, barbante, tesoura e muita criatividade são os ingredientes para transformar papéis crepom de todas as cores em flores e enfeites. Reunidas ali, elas aproveitam para colocar a conversa em dia. Um pouco de refrigerante ajuda a aliviar o calor e um gole de pinga para “molhar a palavra”.

Entre uma bandeirola e uma flor, uma pausa para receber quem chega. A maioria procurando por Dona Natalina. Alguns querem uma entrevista, saber um pouco mais da cultura desse povo. Outros só querem mesmo estar perto e ouvir as histórias de Dona Dainda, como é chamada por muitos.

Com um olhar desconfiado e um sorriso sincero, essa senhora simpática é dona de um temperamento forte e uma grande sabedoria. “Esta flor está boa desse jeito?”. “Está sim, pode continuar fazendo”, responde ela com toda sua experiência. Mas nem sempre as companheiras aceitam a ajuda dela. “Quando eu vou ensinar e dizem que sou a mais sabida, deixo virar a bagaceira”, conta enquanto enrola um fumo.

Na festa original, que tem duração de dez dias, é necessária a presença de trinta mulheres que levam um dia inteiro para preparar tudo. “Só as mulheres fazem os enfeites?”, pergunto. “Não, os homens também ajudam. Quando eles não querem a gente briga e eles vêm”, se diverte Dona Natalina. Na região dos Kalunga, eles aproveitam a presença do padre na festa para fazer casamentos e batizados, que às vezes chegam ao número de duzentos.

A origem da festa ninguém sabe ao certo. “Eu acho que foi quando começou o mundo”, diz uma. “Não tem como saber, mas eu acho que foi quando acabou a escravidão. Os escravos que ficaram fizeram a romaria”, explica Dona Natalina, que desde pequena se lembra de participar da organização da festa, antes feita só com as bebidas, comidas e serenatas dos festeiros. O Império surgiu depois, quando um senhor que morava em Cavalcante viu a manifestação em outra cidade e levou para a região dos Kalunga.

A fé dos antepassados é mantida e repassada para os mais novos. Mas nem todos fazem questão de manter a tradição. “Hoje os novos não querem saber de girar folia, dançar. Só querem saber de dançar forró”, reclama Dona Natalina que se esforça para manter a esperança e a devoção de seu povo.

A noite vai chegando e ainda falta enrolar as quatro varas que serão usadas no dia seguinte. Feitas de um fino bambuelas simbolizam os santos, são a proteção do Imperador e dos anjos. “Não pode passar por cima da vara, tem que passar por baixo”. “Por quê?”, pergunto. “Por respeito, ninguém pode passar por cima dos santos”. Na hora de guardar a vara, a ponta sempre deve ficar virada para cima. Já a sobra de papel crepom é picada e guardada, ela será usada na festa.

Levantamento do mastro 

À noite, é hora da missa das oito, quando será erguido o mastro com a bandeira do Divino Espírito Santo. Um cortejo sai em direção à igreja ao som da sanfona, da caixa, da viola e do pandeiro. Os fogos de artifício anunciam o início da caminhada e avisa a todos que a reza vai começar. As velas são para iluminar o caminho. “É que quando surgiu essa festa não existia luz assim como é hoje”, explica Dona Natalina.

Ao entrar na igreja da Vila de São Jorge, um por um caminha até o altar e pede a bênção aos santos. Sentados nos poucos bancos, em pé próximo à porta ou do lado de fora olhando pela janela, todos se ajeitam neste local tão pequeno e tão cheio de fé. A ladainha e as rezas têm início puxadas pelas rezadeiras que, de um jeito ritmado, cantam as palavras de devoção. “Perdão Deus divino / Perdão Deus de amor / Perdão Deus clemente / Perdoa o senhor”.

Depois de rezar, todos vão para fora da igreja, onde os instrumentos voltam a ser tocados enquanto os devotos caminham cantando em volta da casa de Deus. Uma fogueira é acesa e a bandeira é presa no mastro, que é levantado. “A fogueira é feita com as varas usadas na festa do ano anterior. Ela mostra nossa raiz, de uma época que não tinha luz”. Já o mastro simboliza o início da festa e é uma forma de mostrar a honra dos devotos em rezar. Todo esse serviço é feito pelos homens.

O cortejo volta a caminhar pela cidade, agora em direção à Casa de Cultura Cavaleiro de Jorge, onde será a festa no dia seguinte e onde serão deixadas as varas. A música anima o caminho que é feito com todos andando na mesma direção. “Ninguém pode voltar enquanto um grupo caminha para frente porque se cruzar o santo castiga”. E nem adianta perguntar o motivo, a tradição é mantida pelo temor dos devotos.

Show 

Da Cavaleiro de Jorge todos seguem para o palco, onde serão apresentadas duas danças típicas dos Kalunga, a Sussa e a Curraleira. Em cima do palco os homens tocam e cantam. Algumas das mulheres se ajeitam no chão para tocar a buraca, instrumento feito com couro de vaca. As outras mulheres do grupo se preparam para apresentar a dança.

O palco é pequeno para todos e quem está do lado de baixo não consegue ver como se dança a Sussa. Rapidamente, elas descem e no meio da plateia rodam suas saias batendo o pé no chão. Quem assiste não resiste ao ritmo e logo consegue um lugar ao lado de uma delas para aprender, a festa está formada. “Arriba a saia mulher / Não deixa a saia molhar / A saia custou dinheiro / Dinheiro custa ganhar”.

Depois da Sussa, é a vez da Curraleira, brincadeira em que os homens se dispõem em duas filas, uma de frente a outra, e dançam trocando suas posições e sapateando. A apresentação dura quase uma hora e o público presente aproveita cada minuto. “Eu já conhecia a dança, é ótima, muito envolvente”, diz Josiane Ribeiro, de Brasília.

Império Kalunga 

No domingo, um pouco antes do almoço, é hora de arrumar os últimos detalhes do Império. Usar os enfeites feitos no dia anterior, preparar os biscoitos e bolos e arrumar a mesa com as garrafas de refrigerante, pinga e vinho, tudo muito bem decorado.

Às três horas da tarde, todos se reúnem na Casa de Cultura. Animados pela música que não para, Dona Natalina prepara o Imperador, que é coroado, e os anjos, um menino e uma menina. Denilson Pereira, de 24 anos, cumpre a principal função da festa pela primeira vez. Sua mãe orgulhosa faz questão de tirar foto e não sai de perto dele durante o cortejo.

Tudo pronto. É hora de seguir para a igreja. Ao sair da Casa de Cultura, quatro homens seguram as varas que, formando um quadrado, “protegem” o Imperador e sua família, os anjos, as rezadeiras e os organizadores da festa. Antes, o alferes, coordenador da folia, faz a bênção com a bandeira do Divino Espírito Santo. Depois dele, é a vez do faconista dar a bênção com um facão que simboliza uma espada e dá a proteção ao Imperador.

Os fogos de artifício voltam a estourar no céu anunciando o início do cortejo. Todos caminham pelas ruas de São Jorge enquanto os homens tocam. Na entrada da igreja, o alferes e o faconista dão a bênção mais uma vez para que todos entrem dando início à reza. As rezadeiras mais uma vez assumem sua função e puxam as ladainhas. Na saída, um por um se levanta e caminha em direção ao altar para pedir a bênção dos santos.

De volta à Casa de Cultura é hora da festa. O papel picado no dia anterior é jogado na cabeça de cada um que entra para abençoar quem participa da festa. Mulheres e homens ocupam o salão e no centro, casais se formam para dançar a “puladinha”. O Imperador e os anjos assistem a tudo atrás da mesa decorada.

A combinação de comida, bebida, música e muita animação faz com que a festa siga sem ter hora para acabar. Quem nunca foi à região dos Kalunga pôde conhecer um pouco da alegria desse povo que carrega em sua história a tradição de escravos fugidos.

Só pra entender. Mas será que é preciso?

Pela 3ª vez vou tentar manter um blog. Não consigo deixar isso aqui atualizado, não sou muito fã de escrever e desobri o twitter, tudo que preciso falar em 140 caracteres. Vou pelo menos juntar o que já escrevi e gostei por aqui. Mas vou tentar fazer divagações também, afinal não precisamos compreender tudo na vida, mas compartilhar é preciso. Vou começar postando um texto que escrevi para o Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros sobre o Império Kalunga. Aproveitando também que agora em julho vai ter mais uma edição do encontro e que infelizmentenão vou poder trabalhar lá.

Sejam bem vindos!