Divagações

Durante a graduação em Jornalismo, minha vida acadêmica foi marcada pela extensão. A partir do segundo ano de faculdade, comecei a participar de um projeto de Extensão (Magnífica Mundi), alguns meses depois participava também de outro (Jornalismo e Cultura de Fronteiras) e um ano mais tarde ajudava na criação de mais um projeto (Trombas e Formoso:a vitória dos camponeses). Em todos esses projetos, dos quais faço parte ainda hoje, as atividades realizadas envolvem o universo das classes subalternas, das periferias, dos grupos sociais excluídos do modelo econômico vigente. Foi a partir da participação nesses projetos que pude entender uma outra função e, posso dizer, obrigação do Jornalismo e da Comunicação e com isso acreditar na sua importância.

Digo tudo isso para explicar, através de minha trajetória, o tipo de pesquisa que começo a fazer hoje. Isso porque só depois de concluir a graduação comecei a me dedicar à pesquisa do modo como os “intelectuais” a consideram como tal. No entanto, as experiências que trago da graduação interferem diretamente nas escolhas de pesquisa que faço. Os projetos de extensão me fizeram perceber que tão importante ou mais importante que refletir sobre algo é agir para esse algo, interferir e buscar uma solução para problemas que existam na sociedade. Além disso, trabalhar com as pessoas em algo que realmente pudesse ajudá-las foi fundamental para reflexões teóricas sobre essas realidades. Assim, acredito que uma pesquisa coerente, não pode abrir mão da prática e da ação direta junto aos sujeitos sociais que fazem parte dela, já que para entender um fenômeno é preciso ser parte dele. No meu trabalho de conclusão de curso, por exemplo, eu e mais três colegas apresentamos um projeto experimental com a criação de uma plataforma multimeios para a valorização da memória coletiva da Revolta de Trombas e Formoso e só a partir das experiências da construção desse material é que fizemos a reflexão teórica sobre o assunto.

Tudo isso contribuiu para que eu descobrisse alguns universos com os quais gosto de trabalhar e, consequentemente, pesquisar. Minha atual pesquisa gira então, em torno da cultura popular e das novas tecnologias da comunicação. Poderia ter escolhido qualquer outro tema, mais fácil de conceituar e trabalhar, mas sem saber em que estava me envolvendo animei-me logo com algo tão sedutor e encantador: as festas populares. Tudo era muito simples na minha cabeça, afinal qual a complexidade que pode existir em uma festa popular? Até participar da minha primeira seleção de mestrado e perceber que o povo, a pesquisa participante e a ação vinculada à pesquisa incomodam muitos “pesquisadores”.

Apesar de não ter passado na seleção resolvi tentar uma vaga como aluna especial no mesmo programa, consegui. E toda semana tinha que me preparar para uma batalha de ponto de vista. Hoje consigo ficar indignada com a postura de algumas pessoas e fico me perguntando “como alguém pode pensar dessa forma?”. É, é a pluralidade de opiniões existentes. Pluralidade que é democrática, mas que também pode prejudicar a vida de muitas pessoas. Então, ao longo do semestre fui lendo textos de autores que não concordava e tinha que embasar minha descordância para poder defender meu ponto de vista. E a cada texto minha angústia aumentava junto com minhas dúvidas e incertezas. Afinal o que é cultura, o que é popular, quem é esse povo que eu tanto defendo e acredito? Sim, ele existe e a cultura popular também. E aos poucos me ponho mais segura em relação a isso, hoje com uma ajudinha de Carlos Ginzburg que em seu livro O queijo e os vermes tenta me explicar que muitos autores que se propõem a estudar o popular, na verdade buscam entender a cultura feita para o povo e não pelo povo. E são leituras como essa que me motivam a continuar estudando o que eu quero.

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Tradição grega no Encontro de Culturas

No último dia do Encontro de Culturas Tradicionais, a atriz ateniense Polixeni Aklidi ofereceu uma oficina sobre o Coro na tragédia grega. Durante a tarde, na Casa de Cultura Cavaleiro de Jorge, os participantes se reuniram para ouvir um pouco sobre a tragédia e qual a função do Coro. Depois, era hora de usar o improviso e, a partir de alguns exercícios, ter uma ideia sobre sua composição.

Polixeni, que há cinco anos trabalha como atriz, contou um pouco sobre a origem da tragédia grega, a forma mais antiga de teatro. O gênero, que surgiu no fim do século VI a.C., apresenta uma estrutura fechada de apresentação e muito de sua origem se perdeu no tempo. “Nós não sabemos ao certo como era, nem mesmo a língua que era usada”, explica Polixeni.

Pelo segundo ano, a atriz pôde demostrar um pouco de sua cultura, que vem se perdendo, dentro de um encontro de culturas tradicionais. “Acho muito interessante poder aproximar minha tradição perdida com a cultura brasileira, em que ainda há pessoas interessadas em preservá-la”, completou Polixeni.

Mesmo com um pouco de dificuldade em falar o português, a atriz conseguiu prender a atenção dos participantes. A explicação agora era sobre o Coro, um personagem coletivo que tem a função de narrar a história que está sendo apresentada, além de fazer uma ligação entre o passado e o presente dos outros personagens. “O Coro justifica as ações dos atores já que a relação entre os personagens é muito complexa”. Além disso, o Coro pode representar a democracia, já que mostra a voz do povo.

Para demonstrar essa possibilidade dentro do teatro, Polixeni propôs alguns exercícios. Em uma roda, os participantes se apresentaram mostrando as partes do corpo que mais gostam e as que menos gostam. A descontração foi seguida de um relaxamento do corpo e do aquecimento da voz. A noção de espaço e da presença de outras pessoas nele foi trabalhada no centro da Casa de Cultura, onde os participantes tinham que se movimentar, sem deixar lugares vazios, nem esbarrar nos colegas.


Polixeni: “a consciência corporal dos brasileiros me encanta”. Foto de Mazé Alves

Os exercícios permitiam que os participantes entendessem como funciona o Coro, que permite aos atores se expressarem individualmente, mas sempre considerando as situações coletivas em que estão. “Eu quero dar uma noção do conceito de Coro e passar a primeira característica do teatro grego, que é o indivíduo dentro de um grupo que funciona junto”, completa.

Duas frases da peça Prometeu Acorrentado, de Ésquilo, foram usadas para a composição do Coro. Em grego, todos repetiram juntos as palavras, mostrando a importância de se ouvir os outros. Os mesmos exercícios foram então repetidos, mas agora no ritmo das frases que eram ditas pelos participantes.

Em seguida, cada um teve que imaginar uma fotografia que tirou, em uma situação que havia água. Cada um descreveu sua foto, sempre usando a terceira pessoa. A descrição era feita ininterruptamente, até que outro começasse a fazer o mesmo. “Dentro da peça Prometeu Acorrentado, o Coro era composto pelos espíritos de água que se movimentavam ao redor dele”, explicou Polixeni.

No fim, os exercícios eram feitos juntos, até o momento em que a atriz pedia para que todos parassem, formando uma imagem, em que o gesto de um era completado pelo outro. Ao mesmo tempo, todos falavam em voz alta as frases em grego e um por um saía de sua posição descrevendo imagens de fotografias que envolviam rios, lagos e o mar.

A cada exercício proposto, os participantes se soltavam mais e utilizavam o improviso. A imaginação dos participantes surpreendeu a atriz, que se viu em meio a uma grande brincadeira. “Sempre que dou oficina no Brasil fico encantada porque as pessoas são muito abertas e têm uma consciência corporal muito avançada em comparação aos europeus”, elogiou Polixeni no fim da oficina.

Próximo post

Olá.. o próximo post é uma matéria que escrevi sobre uma oficina de teatro grego no Encontro de Culturas da Chapada dos Veadeiros.

Aproveitem!

A Copa e algumas reflexões

Estava pensando como algumas experiências que acontecem em nossa vida fazem com que mudemos nossas visões em relação a qualquer assunto, até mesmo uma simples Copa do Mundo. Não digo simples no sentido de pouca relevância, mas de sua importância em relação a outros assuntos como saúde, educação, violência, guerras, enfim…

Mesmo sabendo que a Copa do Mundo faz parte da lógica capitalista, de todo o dinheiro envolvido nela (milhões para ser o patrocinador oficial, preço de ingresso), da vaidade e do ego das pessoas envolvidas e tudo que o consumo durante esse grandioso evento provoca, eu gosto e acompanho a Copa do Mundo. Antes disso,  eu gosto de futebol e acompanho sempre que posso, trabalhei 2 anos com isso, apesar de não ser uma expert (mas hoje descobri que prefiro ser uma telespectadora do que uma profissional na área).

Mas voltando às experiências que mudam nossa vida, é que hoje vendo o jogo do Uruguai contra Gana percebi que qualquer um que ganhasse eu estaria satisfeita e qualquer um que perdesse eu ficaria com dó. E hoje, que o Brasil não está mais na Copa digo que torço por Uruguai, Paraguai e até mesmo Argentina, sim até mesmo Argentina. E no começo da Copa torcia por todos os países africanos e latino americanos.

Agora me explico. Depois de passar quase dois meses na Bolívia, participar de um projeto com estudantes de lá por quatro anos e estudar sobre a nossa história da América Latina e conhecer mais sobre a cultura africana, principalmente pelas influências na nossa cultura, hoje me sinto fazendo parte desses países. Hoje entendo nossa relação de irmandade e posso dizer como somos parecidos, apesar de todas as diferenças. A seleção alemã diz que somos muito sentimentais, eu digo: sim, somos mesmo. Porque apesar de tudo que a Europa e EUA fizeram nas Américas e África, nós não deixamos nossas raízes morrerem (modificada sim, morta não).

E para quem quiser conhecer um pouco da verdadeira história das Copas do Mundo recomendo o livro do Eduardo Galeano: Fútbol a sol y sombra (posso emprestar, está em espanhol). Para quem quiser conhecer um pouco da verdadeira história da América Latina recomendo outro livro do Galeano: As veias abertas da América Latina. E por fim, para quem quiser ver as raízes africanas na nossa cultura basta ler sobre a cultura popular, principalmente as festas, músicas e religião; coco, samba, batuque, carimbó e tantas outras…

Boa sorte aos nossos vizinhos na Copa!