Janela

Olhando para a janela

Resolvi pular

Para a próxima página do livro.

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Intenções

Cachos que me aprisionam

e que me libertam,

que parecem mola

e que me acobertam

as intenções e alguns desejos

e que me dão o direito

de ser até o que eu não me vejo!

Histórias no banco da praça

Se você tem tempo para uma boa conversa, quer alguma informação ou simplesmente precisa de um conselho é só ir à Praça Eurico Viana, localizada na República do Líbano com rua 2, no Setor Oeste, e procurar o Seu João Alves de Carvalho, ou se preferir, Seu Joanico.

Para encontrá-lo na praça tem horário certo. De segunda a sexta-feira, de 10 da manhã às 3 da tarde. Não adianta procurá-lo nos fins de semana e feriados, provavelmente ele não estará lá, só quando ele resolve fazer hora extra.

O motivo? Ele está na praça somente no horário de funcionamento dos bancos. A relação dele com os bancos? Bem, há oito meses Seu Joanico deixou sua antiga função de varrer a praça (que depois eu vou explicar o motivo) para vigiar os meninos que vigiam os carros.

Vou explicar. Como nas proximidades da praça têm muitos bancos, muitos carros estacionam pelas ruas e isso atrai os “vigilantes” que querem ganhar seus trocados. Mas esses “vigilantes” também faziam muita sujeira e bagunça na praça, então Seu Joanico resolveu dar um basta nisso.

“Eu disse pra eles que podiam vigiar os carros, mas que não podiam cobrar. Resultado, ninguém mais quis ficar aqui.”

Seu Joanico também ameaçava chamar a polícia quando via alguém badernando na praça. Perguntei se ele não tinha medo de que fizessem algo com ele.

“Se falar que não tenho medo é mentiroso. Se eu ver que vão me bater eu corro.”

Assim Seu Joanico segue sua rotina na praça que fica a apenas alguns metros de sua casa. Casa de muros baixos, um grande jardim muito bem cuidado e seu fusca azul, ano 72, sempre na garagem.

Seu Joanico e a praça

A história de Seu Joanico com a praça começou há mais ou menos oito anos. Além de varrer, tirava o lixo dos lixeiros e pedia para que não deixassem cocô de cachorro ali. Por causa disso passava todo o dia na praça. Segundo ele, quando começou a cuidar muita gente queria que ele parasse.

“Acho que teve gente que ficou com inveja. Aqui arranja muita amizade, mas também muita inimizade.”

Naquela época, segundo ele, a praça era muito desleixada e os meninos de rua faziam muita bagunça. Hoje, realmente, quase não se vê esses meninos. Para Seu Joanico o que está faltando agora é iluminação, mas a praça melhorou muito.

“O difícil não é fazer praça, é zelar.”

Nessa época Seu Joanico tinha mais amizade porque muita gente queria saber quanto ele ganhava. A reposta? Nada! Ele nunca ganhou nada pelo serviço que fazia. Seu Joanico parou de varrer porque, segundo ele, é hora da Prefeitura cuidar e deixá-lo descansar. Hoje, um outro senhor que ele não conhece é quem faz esse serviço. Mas, segundo Seu Joanico, como ele não varre com vassoura fica mal feito.

Enquanto conversávamos na praça, fomos interrompidos várias vezes por alguns conhecidos de Seu Joanico. O assunto das conversas eram a própria praça e a saúde de amigos em comum.

Para ele tudo que se aprende é na escola ou ouvindo os outros, mas quem sabe o que se passa no coração de cada um é só Deus e a própria pessoa quem sabem.

“Para quem eu posso dar bom conselho eu dou, se não fico calado”.

Isso aconteceu quando me despedi de Seu Joanico. Depois de algumas horas de conversa ele me ofereceu um conselho.

“Quando você for se casar, não arruma homem mais novo porque mulher acaba mais rápido e ele vai atrás de outra”.

Sábias palavras, mas mal sabe ele que a jovem aspirante a repórter nem pretende se casar.

Vida

Seu Joanico nasceu no dia 11 de maio de 1927 em uma fazenda a 8 Km de Trindade. Os pais, Gabriel Alves de Carvalho e Florípedes Borges de Carvalho, cuidavam de 15 filhos. Seu Joanico era o quarto. Dos 15 irmãos, sete morreram ainda crianças e hoje eles são apenas quatro vivos.

Quando ele tinha 12 anos, toda a família se mudou para Trindade. Nessa época o pai trabalhava em um gerador a lenha que fornecia energia para parte da cidade, mas só até as dez horas da noite.

“Depois disso ficava todo mundo no escuro.”

Trabalhou como engraxate, como entregador de pão e motorista do caminhão do pai. Mudou-se para Goiânia com a família, onde morou um tempo em Campinas. As datas já não se lembra ao certo. Pediu a Deus para esquecer tudo que aconteceu na sua vida, estes detalhes vão então ficando para trás.

Com 34 anos foi eleito vice-prefeito de José Pinto Magalhães em Trindade pelo antigo PSD. Pelo mesmo partido, Íris Resende foi eleito, em 1965, prefeito em Goiânia, mas o mandato durou até 1969 quando foi cassado pelo regime militar. Algumas coisas não mudaram desde aquela época, como a prefeitura de Goiânia, que mais uma vez está nas mãos de Íris.

“Ele é um bom administrador, teve mais acertos que falhas. Até porque quem não tem falhas é porque nasceu morto”, garante Seu Joanico.

Já a vida política de João Alves de Carvalho durou apenas os cinco anos do único mandato. O vice-prefeito de Trindade, que recebeu mais votos que o prefeito (naquela época a votação era separada), preferiu acompanhar os filhos que iriam iniciar a faculdade na Universidade Federal de Goiás.

Uma das poucas coisas que ainda se lembra ter feito enquanto vice foi ir ao Senado pedir verba. Mas, segundo Seu Joanico, quando se conseguia uma verba, dez por cento tinha que ficar com o Senado. Ainda hoje ele guarda seu diploma de vice.

Hoje, no site da prefeitura de Trindade, Seu Joanico aparece como uma personalidade trindadense:

“JOÃO ALVES DE CARVALHO (JOANICO ALVES)

Nasceu em Trindade, filho de Gabriel Alves de Carvalho e Floripes Borges de Carvalho. Destacou-se como fazendeiro e político, sendo candidato pelo antigo PSD. Proprietário da Fazenda Barro Branco, casado com Doralice de Oliveira, foi vice-prefeito do ilustre Drº José Pinto de Magalhães. Dono de um grande caráter, muito justo e leal, inteligente, perspicaz, observador e trabalhador incansável. Tem vários descendentes que lhe dão muito orgulho.”

Família

Seu Joanico se casou aos 23 anos com Doralice Oliveira de Carvalho, um ano mais velha que ele. Doralice nasceu em Pirenópolis, mas os dois se conheceram em Trindade. Joanico já não se lembra como os dois começaram a namorar. Hoje ele tem um grande carinho pela mulher que cuidou dele durante a vida.

“Hoje eu que cuido dela”.

O casal tem três filhos, Paulo César Carvalho, Paulo Roberto Carvalho e Maria de Fátima Carvalho. Os dois homens, um engenheiro eletricista e o outro civil, são casados e a mulher, que é “desquitada”, há aproximadamente 4 anos se mudou para os Estados Unidos.

No total são dez netos. Paulo César tem três filhos, Paulo Roberto quatro e Maria de Fátima três. Dos bisnetos tem conhecimento de quatro.

Rotina

Aposentado desde 1992, Seu Joanico acorda todos os dias às cinco da manhã e almoça às dez.

“Velho gosta de acordar mais cedo para ficar a toa mais tempo”, brinca.

Todos os dias caminha por uma hora no Bosque dos Buritis. Em casa faz os serviços domésticos. Segundo ele sempre que quiser tem serviço para fazer.

Depois de almoçar vai para a praça onde fica até às 3 da tarde. A mulher, segundo ele, acha bom o tempo que fica fora de casa porque a deixa sossegada.

Doralice não tem amigos e não sai de casa, tem medo. Também não deixa mais ninguém entrar em sua casa. Há um tempo, duas meninas disseram que eram amigas de sua filha, entraram na sua casa e levaram 750 reais.

Enquanto cuida da casa, Doralice tem sempre o rádio sintonizado na Difusora, onde ouve o Padre Marcelo Rossi.

“Não pode mudar a sintonia porque se não ela não encontra de novo”.

Já na televisão os dois assistem à novela de crianças e Malhação, além de duas missas todos os dias. Assistem ao jornal quando está bom, ou seja, quando não tem calamidades. Quando fica muito repetitivo ele muda de canal.

Seu Joanico não vai mais com freqüência à Trindade, só quando morre algum parente. Os parentes mais novos ele nem conhece. Na chácara onde nasceu, na qual mora um de seus filhos, não vai há oito anos.

Às vezes vai à Campinas, onde o pai morreu em 1951, para procurar um supermercado mais barato. Quando não vai comprar, vai para passear. Ao invés de usar seu fusca, prefere ir de ônibus. O automóvel sai da garagem somente para colocar gasolina.

Com uma saúde de ferro, Seu Joanico quase não precisa ir ao médico. O único problema é a pressão alta, mas isto já está controlado.

“Doença é da cabeça da gente. 80% das pessoas que vão ao médico não estão doentes”.

Seu Joanico não sabe dançar, mas gosta de música animada, que tenha letra boa. Apesar de quase não ter acesso, diz gostar muito de tango. No futebol, não torce por nenhum time, mas gosta de assistir a bons dribles, como aqueles feitos por Garrincha, que segundo ele, igual não vai ter mais.

Quem vê este senhor de boina bege sentado na praça todos os dias, nem imagina quantas histórias ele tem para contar. Ninguém imagina que ali está sentado uma personalidade trindadense, um marido que entrega toda sua aposentadoria para a mulher administrar, um pai que acredita que não adianta conseguir muita coisa na vida se os filhos não derem valor e um católico que crê que Deus ou dá dinheiro ou dá saúde e felicidade para uma pessoa, nunca as duas coisas.

Seu Joanico acredita que a sua missão está acabando, já fez tudo que tinha para fazer, por isso não tem medo da morte. Com imagens de Jesus Cristo e Santo Expedito na carteira, ele segue sua rotina esperando o dia em que ela vai acabar. Mas enquanto o fim não chega Seu Joanico segue servindo a população goianiense. Mas só no horário comercial!

Ohos

Olhos que julgam

Olhos que mentem

Olhos que brilham

Janela da alma?

Prefiro entrar pela porta da frente!

Ao som do pífano e das histórias de Seu Zé

A primeira atração do palco na noite desta terça-feira, 28, foi Zé do Pife e as Juvelinas. O pernambucano tocador de pífano, acompanhado de cinco das nove meninas do grupo, mostrou um pouco da cultura nordestina ao som da zabumba, caixa, pratos, violino, triângulo e pífanos.

Enquanto era chamado no palco para a passagem de som, Zé do Pife tocava na rua para algumas pessoas que vendiam artesanato. “Seu Zé, estão chamando a gente no palco”, chamou uma das Juvelinas. “Espera aí, só mais uma música”, responde Seu Zé já colocando o “pife” na boca.

A apresentação começou com as cinco jovens cantando um côco em homenagem a Seu Zé. Enquanto elas falavam sobre a honra de acompanhá-lo, lá atrás do palco ele esquecia o microfone ligado e conversava com alguém, já combinando a venda dos pifes que fabrica.

No meio da música, ele entra dançando com sua camisa lilás, chapéu na cabeça e pife na mão. A alegria de Seu Zé toma conta do palco e o ritmo nordestino anima a plateia. “Menina eu vou cantar / Um grande côco dos meus / Se você não me conhece / O Zé do Pife sou eu”.

“É muito bom trabalhar com ele porque a gente vive aprendendo um com o outro. Além da troca de experiência, tem a energia de Seu Zé”, conta Maísa Arantes que participa do grupo há seis meses.

Durante o show, que contou com composições próprias e outras músicas mais conhecidas, como uma do compositor Luiz Gonzaga, as Juvelinas anunciaram que a ciranda iria começar. Uma grande roda foi formada, mas o espaço não era suficiente para todos. Duas rodas pequenas surgiram dentro da maior e, de mãos dadas, todos começaram a dançar a ciranda tocada pelo grupo.

Depois da brincadeira, Mestre Zé do Pife e as Juvelinas se juntaram a plateia, para a apresentação da alvorada. Em duas filas, eles trocavam de posição enquanto tocavam. Ao redor, todos olhavam atentamente, enquanto uma criança dançava atrás deles.

A alvorada é feita no Nordeste durante as novenas que acontecem nos povoados. “Antes da missa, o padre chama a banda de pife para tocar em frente o altar e eles fazem reverência aos santos como nós fizemos”, explica Seu Zé.

A apresentação já chegava ao fim quando o grupo começou um frevo. “Quem sabe dançar frevo manda bala que o negócio é quente”, avisou Seu Zé. O ritmo tomou conta de todos e a energia do tocador de pife só parecia aumentar. O próximo grupo já esperava para se apresentar, mas Seu Zé não queria sair de perto do povo. “Só mais uma, vamos encerrar com um xote”. E assim se despediu o grupo.

Depois do show, Seu Zé sentou em um banco de madeira ao lado do palco e atendeu quem queria comprar os pifes fabricados por ele. Quem comprava, ganhava ainda algumas dicas e conselhos para aprender a tocar o instrumento, como a pequena de Bárbara, de 8 anos, que pediu à sua mãe que comprasse um pife.

Histórias

Com quase a mesma idade de Bárbara, Seu Zé começou a se interessar pelo instrumento. Ele e seu irmão acompanhavam as bandas de pife de sua região, que saíam pelos povoados arrecadando prendas para as novenas. A beleza do som encantou os meninos que logo começaram a fazer o próprio pife. “A gente tirava talo de jerimum, que aqui vocês chamam de abóbora, ou então de mamona e fazia. Quando estava pronto a gente treinava e aprendia devagar”, conta Seu Zé.

O esforço dos garotos fez com que o avô montasse uma banda de pífano com os netos. Assim começou a carreira de Seu Zé que, mais tarde começou a viajar pelo estado de Pernambuco. “Eu sofri muito no canavial, trabalhava que só burro e não ganhava nada”. Por causa disso, ele resolveu ir para São Paulo, onde trabalhou em uma construtora e ajudou na construção de um metrô.

Nas horas vagas ele ia até o setor de chácaras da cidade e pedia pedaços de bambu para fazer os pifes. O talento para tocar o instrumento começou a ser conhecido pelos colegas de profissão que o incentivaram a se inscrever no programa de calouros do Sílvio Santos. Depois de muito tempo de espera, Seu Zé foi chamado para se apresentar. O sucesso foi tanto, que depois Seu Zé do Pife passou pelos programas do Chacrinha, Barros de Alencar e Raul Gil.

Em 1993, Seu Zé chegou a Brasília, onde também trabalhava em uma construtora. Depois de ser demitido, passou a se dedicar somente ao pife. Hoje ele fabrica, toca e ensina a tocar o instrumento. “E o que o senhor prefere fazer?”, pergunto. “Eu gosto mais de tocar, mas eu gosto de ensinar porque quero que todo mundo saiba tocar esse instrumento”, conta ele com um sorriso no rosto.

Em suas andanças pela UnB (Universidade de Brasília), as meninas que hoje tocam com ele conheceram seu trabalho e quiseram aprender. E foi dessa forma que, por iniciativa delas, a banda teve início há quase um ano e em outubro gravará seu primeiro CD. A pouca idade das meninas inspirou o nome do grupo. “Juvelinas porque elas são todas jovens, novinhas”, conta.

A simplicidade de Seu Zé encanta a todos que o conhecem. Quando toca seu pife pelas ruas de Brasília chega a emocionar quem o ouve. “Já aconteceu várias vezes, quando eu estou tocando no meio da rua, as pessoas vêm conversar comigo, tirar foto e quem está triste começa a chorar, não sei se é porque acha bonito ou por recordação de alguma coisa”, explica.

Com essa alegria de viver, Seu Zé tem também o dom do improviso e “com voz de poeta cantador” inventa as letras que combinam com cada momento de sua vida. “Olha gente eu moro aqui no Distrito Federar / Eu toco pife em Brasília e faço o povo chorar / Que é por isso que não pode as bandas de pife acabar”.

Foto: Mazé Alves

Mestre Zé do Pife