Eu quero uma casa

Eu quero uma casa. E não precisa ter sala nem porta da frente.

Eu quero muito espaço, com uma enorme mesa ao centro.

E um quintal, para plantar pensamentos, colher alegrias.

Poder guardar uma bicicleta. Duas ou mais.

E reunir festas e poesias.

Flores são sempre bem-vindas. De todas as cores.

E não podem faltar muitas árvores, frutas e sabores.

Quero uma área grande para dançar loucamente.

Receber desconhecidos, amigos e parentes.

Quero reuniões, bagunças e barulho.

Uma cozinha com cheiros e costumes.

Quero uma casa em que caibam muitos colchões.

Que venham com eles histórias, descobertas, emoções.

As várias janelas quase nunca se fecharão.

Sussurros e segredos por elas entrarão.

E pelas portas saudades e desejos sairão.

Eu quero uma casa.

Não precisa ser grande. Mas que caiba a criação

De soluções, momentos e paixões.

Cores,  formas, estilos, presentes e olvidos.

Eu quero uma casa.

Para encontrar olhares e perder sentidos.

Para rolar na grama e ouvir ruídos.

Ver as formas das folhas, contar as cigarras

E seguir as formigas até suas casas.

Eu quero uma casa.

Para dizer volte sempre!

Pra lá da avenida Noel Rosa

Domingo, 9 horas da manhã. Depois da avenida Noel Rosa, o Conjunto Eldorado Oeste. Algumas famílias se reúnem ali quinzenalmente para acompanharem o andamento da construção de suas casas. No total serão 150 famílias beneficiadas, mas nem todas estavam presentes. Quem não vai paga o correspondente a dois sacos de cimento. O restante conversa, debate e põe a mão na massa. Algumas mulheres ficam responsáveis por cuidar das crianças, outras fazem questão de ajudar na obra, uma passa mal, mas com certeza era por um bom motivo. Ter sua casa própria. Não importa se é pequena, se demora um ano ou mais pra ficar pronta ou se é em um bairro um pouco distante do centro da cidade. Estas serão suas casas.

A União Estadual por Moradia Popular atua em Goiás na construção de projetos habitacionais junto às comunidades. Até que se dê início a uma obra são pelo menos três anos de reuniões com os futuros proprietários. Os mutirões acontecem em poucas horas em alguns domingos, enquanto serventes trabalham durante a semana. O terreno e o material de construção são comprados com o dinheiro dos moradores. O restante é financiado pela Caixa Econômica. Dez por cento do salário mínimo pago por doze anos é o valor que a população paga.

O projeto do Eldorado Oeste é composto por quatro etapas. Cada uma beneficia 150 famílias e a maioria delas já não precisa mais pagar aluguel, a atuação do movimento ali já está em sua fase final.

Enquanto caminhamos pelas obras, Manoel Divino, um dos coordenadores nacionais, nos explica como funciona tudo. “E a minha casa, onde será?”, pergunta uma mulher. “Qual é a sua?”, responde Manoel. A rua, com lote e número está escrito em um pequeno papel guardado junto a outros documentos. O endereço da futura casa já existe. Tudo isso é acompanhado por um assistente social da Caixa, que faz a chamada dos presentes.

Seu Válter é integrante do movimento. Participava da luta por moradia em Goiânia mesmo antes da existência da União, ainda na década de 70 quando surgia o Jardim Nova Esperança, esse que aparece escrito em um Citybus que circula pela cidade. Seu Válter mora em Trindade e desde 84 já tem sua casa própria. Filósofo e Historiador diz que faz questão de continuar ajudando na luta.

Para conhecer uma casa pronta fomos à residência de dona Noêmia, que mora com a mãe Emília e a neta Fernanda. O convite de casamento da mais nova está na  mesa e passa de mão em mão. Depois de um café percebemos a cara que cada um dá à casa que antes parecia tão igual às outras.

No Eldorado Oeste, que fica depois do Conjunto Vera Cruz II, as ruas são asfaltadas, há energia, água, ônibus, escola, posto de saúde e comércio (tudo isso é claro com todas as deficiências que conhecemos bem). A infra-estrutura do bairro é uma das preocupações da União que busca a construção das casas em setores consolidados e que de fato fazem parte da cidade. Ao contrário do que acontece com os residenciais construídos pela prefeitura. Um exemplo são as casas do Residencial Jardins do Cerrado, distante da cidade o objetivo é valorizar os terrenos que ficam entre o novo bairro e o restante de Goiânia. (Veja localização: http://wikimapia.org/#lat=-16.6725376&lon=-49.4056892&z=14&l=9&m=b)

A luta pela moradia se mostra como mais uma das diversas lutas pelo direito à cidade. Ter acesso, fazer parte, se sentir parte. Acho que as pessoas não querem muito, não é mesmo?