Em defesa da cidade

Na minha última aula de italiano foi proposto um debate campo x cidade. Na divisão fiquei com a última e no mesmo momento pensei o quão difícil seria essa tarefa. Na busca por argumentos, decidi que não iria defender essa cidade onde vivemos, construída e que cresce para o dinheiro e poder de poucos e pelo suor de muitos.  Mas uma cidade justa, à qual todos têm direito e pela qual todos deveriam lutar.

Decidi falar de uma cidade em que as distâncias não são tão grandes por causa de um transporte público eficiente e de qualidade. Em que os hospitais recebem a todos com respeito e dignidade. Em que as escolas prezam por uma educação pela transformação. E onde a criatividade é incentivada pelos palcos imaginários ou não.

Decidi falar não de uma cidade feita de prédios e carros, mas daquela construída pelas relações humanas. Dos picnics nos bosques, dos namoros nas praças, do futebol das noites de segunda, dos desabafos nos bares, dos mutirões de domingo, das festas nos quintais, das gargalhadas pelas ruas, das histórias presentes nos becos e esquinas. Histórias que devem ser buscadas, encontradas, ouvidas, compartilhadas.

Infelizmente estou falando de uma cidade que muitas pessoas desconhecem e ignoram. De uma cidade em que existe o compartilhar, o vivenciar, o ajudar. De uma cidade que pulsa, que vive, que se transforma e se propõe a mudar. De uma cidade que tem em sua história a cultura do campo enraizada, fundida, presente rotineiramente. De uma cidade que precisa do campo e que existe por causa dele. Mas eu também estou falando de outro campo e não desse das grandes plantações.

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1 comentário (+adicionar seu?)

  1. Philippe
    out 16, 2011 @ 21:32:02

    Pô Gabriela, gostei do seu texto.

    Eu penso que a coisa toda tá bichada desde o princípio; desde considerar-se a oposição, desde o “a priori” da oposição: como se cidade e campo não fossem domínios reconhecíveis, positivos, senão a partir desta sua (falsa) dicotomia. Uma vez estabelecidos estes espaços “irreconciliáveis”, poderíamos pensar numa existência privilegiada, num futuro elegível (ao nível do quê? da civilização?) que submetesse o outro à sua própria existência independente: que o superasse… Isso que você escreve aqui não é meramente utópico, como se utópico fosse uma palavra desencantada pela pseudo-crítica hiper-vigilante: não, é antes uma pista, um verdadeiro sintoma, o fato de muitos desconhecerem essa cidade de que você fala e com a qual você sonha. É que na cidade os problemas fundamentais da vida, a indiferença inescapável do mundo, o núcleo-duro inescrutável do outro que vive ali do meu lado, simplesmente estão mais visíveis, vivem mais aflorados: os contatos são bem mais rápidos, o bolo nunca fermenta como deveria – a gente come ele cru, quando come… mas nem por isso ela se deixa reduzir às lamentáveis desesperanças, ou a choradeira das várias ondas verdes, dos “minutos com a luz desligada”, ou da ignorância em se pagar mais caro pela banana sem carbureto – a sua indiferença de ferro e concreto não se resolve no fetichismo da “vida no campo”… não adianta o pessimismo não é mesmo Gabi? Ainda mais com palavras que já dizem muito pouco, de tanto serem usadas, a torto e a direito.
    Eu também penso é numa cidade “construída pelas relações humanas”. E não adianta coloca-la no futuro – por isso que para mim esse seu pequeno texto não é nada utópico. O grande talento, o grande e verdadeiro talento – mas para isso é necessário ter o céu dentro dos olhos – será desvendar essa “cidade que pulsa, que vive, que se transforma e se propõe a mudar”.

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