Irmã Gabriela era brava como uma onça

Em mais uma andança de minha vida, saí de Juiz de Fora rumo a Londrina. Como de costume, o medo de perder ônibus, avião ou coisas similares me fez chegar com quase uma hora de antecedência na rodoviária, numa manhã fria e cinza depois de uma tempestade de granizo na noite anterior.

Sentada à espera do ônibus, ia começar a ler um texto sobre catolicismo popular quando senta ao meu lado uma senhora e diz: “É dramática!”. Eu pergunto: “O quê?”. E ela responde: “A vida. A vida é dramática”. E assim começou um diálogo que duraria cerca de 30 minutos.

“É até estranho quando as coisas dão certo né? Saí de casa achando que ia pegar o ônibus das 8h30, mas o moço disse que não tem esse horário. Mas pelo menos consegui chegar a tempo.” Ela olha para a passagem e diz “Nossa, meu ônibus é só 10h15. Que que eu vou ficar fazendo aqui até lá.” E olhando para as plantas do outro lado diz como as acha bonitas “Você sabe que planta é aquela?” Mas antes que eu pudesse responder minha mãe me liga porque não tinha entendido nada da mensagem que eu tinha mandado (tinha chegado toda cortada). “Estou indo pra Londrina agora, você acha que eu ia viajar sem te avisar?” Quando desligo, a senhora, que se chama Terezinha, me pergunta se era o namorado e respondo que era minha mãe. “Ah, pra mãe tem que avisar mesmo.”

Terezinha volta ao assunto da planta, digo que não sei qual é e ela me conta que sempre teve curiosidade de vê-la de perto. Eu sugiro que ela aproveite que vai ter que esperar pelo ônibus e vá até lá olhar. E ela se entusiasma com a ideia e complementa: “E ainda posso pegar um mudinha. Vou pegar uma pra você também.” E lá vai dona Terezinha.

Com toda a tranquilidade que a idade, a sabedoria e a espera do ônibus permitem, ela olha cuidadosamente a planta. Até que um funcionário da rodoviária grita “Senhora, não pode ficar aí não, é proibido.” Ela olha pra trás e dá de ombros e segue na missão de encontrar a muda.

Como ela não saiu de lá, um outro funcionário foi em sua direção, enquanto alguns ônibus passavam por ali. “Senhora, não pode ficar aqui não, é proibido.” Depois de ter recolhido uma muda e procurando a segunda que seria dada pra mim, ela responde: “Mas eu só quero pegar uma mudinha.” O funcionário, com toda a pressa arranca um pedaço da planta e entrega para a senhora enquanto a conduz de volta para a parte de embarque.

Terezinha volta rindo e me contando o que o funcionário tinha dito e mostra o pedaço da planta que ele arrancou. “Isso aqui não dá pra plantar não, olha como ele arrancou.” E segue rindo. “Bom, acho que dá pra fazer alguma coisa com essas folhas, é que eu faço uns cartões pra vender e com o dinheiro compro presentes para os meninos da casa de menores infratores de Belo Horizonte.”

Cuidadosamente ela começa a arrancar folha por folha e a limpá-las. “Eu estou fazendo isso porque não tem nada pra fazer até o ônibus chegar. Tem que arrumar um serviço né.” Terezinha então me conta que é freira, desde menina, não quis nem falar quando entrou no convento, mas contou várias histórias, dos lugares onde morou, da família e dos amigos. De muitos lembrava apenas do rosto, não era boa para guardar nomes. “Qual seu nome mesmo?”

“Ah, em uma das cidades que eu morei tinha a irmã Gabriela, era brava como uma onça, feia e gorda. Agora não esqueço mais seu nome.” Meu ônibus chegou e Terezinha queria me dar alguma coisa, já que a muda da planta ficou pra trás. Ela procura na sua bolsa e a única coisa que encontra são dois santinhos de Santo Expedito. “Você é católica? Ahh, graças a Deus. Toma um pra você e outro pra sua mãe.” E vai conversando comigo até a porta do ônibus. Vou embora e Terezinha segue esperando sentada, agora sozinha, no banco da rodoviária.