Muito além da arte

Este texto foi escrito em resposta à carta feita pelo Pró-reitor de cultura da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), que pode ser lida neste link: http://www.ufjf.br/secom/2012/08/28/sobre-a-arte-e-o-vandalismo-carta-do-pro-reitor-de-cultura/

Este é um texto livre, sem rigor de conceitos, mas para quem quiser algo mais acadêmico minha amiga Tatiane de Assis sugeriu este artigo: http://www.fcsh.unl.pt/revistas/arquivos-da-memoria/ArtPDF/RicardoCamposAM5.pdf

Quando um Pró-reitor de cultura de uma universidade federal faz uma declaração na qual configura a pichação como algo diretamente ligada à questão de segurança e a restringe enquanto uma oposição à arte do grafite me vêm várias preocupações. Vamos por partes.

1- Falar de patrimônio. Algo importante para a formação cultural de um povo. Mas quando falamos em patrimônio público, a qual política estamos nos referindo? Pensemos em um contexto dos últimos 100 anos para facilitar a reflexão. O patrimônio é de grande importância para a própria construção da memória de uma sociedade. Mas da memória de quem estamos falando quando pensamos tal política feita no Brasil? Destaco aqui que só nos últimos governos o IPHAN (e outras instituições parceiras) começou a ter uma preocupação maior com bens que iam além de prédios e construções. O patrimônio imaterial só há pouco tempo teve a atenção que merece. Até porque a cultura é construída principalmente pelas pessoas, mais que pelos concretos e materiais afins.

2-Tratar os pichadores como criminosos. As pessoas que consideram essa possibilidade já pararam para pensar quem são elas? Sobre o que elas pensam? O que a pichação significa para elas? Muito provavelmente muitas dessas pessoas não conhecem sequer a cidade onde moram e nunca passaram para ver e conhecer o que tem depois do Alto dos Passos ou atrás do morro do Bairro Borboleta (e olha que não estou falando do Benfica).

3-O Cine Theatro Central. Estou há seis meses morando em Juiz de Fora e só vi o Cine Theatro aberto uma única vez para o Festival de Música Antiga e Colonial. Que aliás, convenhamos, não é um nome muito atrativo para um festival de música instrumental (talvez seja porque isso remeta a um passado de glória da cidade que construída por negros, ainda os mantêm nas periferias da cidade, às quais me referi acima, presos em outras formas de escravidão). Eu mesma só diminuí meu preconceito quando vi Yamandú Costa na programação, mas mesmo assim fui mais para ver como era o teatro por dentro (bem bonito, aliás) e me deparei com uma orquestra belíssima que com toda certeza não restringia ao que entendo por música antiga ou colonial. Nesse sentido quero questionar a quem o Cine Theatro Central realmente serve, além é claro das colações de grau dos estudantes da UFJF. Para contribuir com uma política cultural da cidade ou mais para alimentar a vaidade dos que se acreditam cult? (Essa impressão eu tive no festival de cinema francês no Cine Alameda, que sempre reserva salas para cinema nacional e também filmes estrangeiros fora da grande rota comercial holiwoodiana, mas que dificilmente lota uma dessas seções. O contrário aconteceu justamente com os filmes do festival – e não é porque eram franceses porque eu mesma já os vi na programação normal do cinema. É cult ir em festival de filme francês e muitos ali prefeririam que ele acontecesse nos cinemas do Shopping Independência, que dificilmente reserva espaço para os filmes que mencionei acima).

4- Depredação do patrimônio. Pode parecer surpresa para muitos, mas os pichadores não costumam ver sua pichação como algo que depreda. Eles veem beleza assim. Isso mesmo meu caros, usando uma expressão bem clichê: A beleza está nos olhos de quem vê. E a qual beleza você foi treinado a apreciar? Não estamos aqui falando de depredação, mas de estratégia de comunicação. Afinal, o Cine Theatro Central é um lugar bem localizado e visado para se comunicar. A beleza e o grito da indignação, do cansaço de ser lembrado apenas em época de eleições, do descaso do poder público com os lugares onde vivem e com a indiferença vivida no dia a dia.

5- Por fim me preocupa ver uma declaração como a do professor vinda de um pró-reitor de cultura. Isso só enfatiza como a cultura é vista em muitas universidades do país e não só. As reitorias com toda sua autonomia não conseguem, em sua maioria, construir políticas convergentes dentro de uma universidade. A cultura não se restringe à arte e a arte não se restringe às salas de exposições e museus.

6-Estava me esquecendo da parte da segurança, à qual o pró-reitor se refere. Mas acho que temos que debater muita coisa antes de chegar nesse ponto.

Me desculpem a ignorância sobre o movimento de pichação em Juiz de Fora. O que escrevo aqui tem como base a cidade de Goiânia e a minha amiga Tatiane de Assis que ajudou na produção do documentário Pixoiano: http://www.youtube.com/watch?v=T10P4Ov_Ub4

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