A fé e a criatividade do Carrapatim

Um dos bairros que compõe a zona sul de Juiz de Fora é o Ipiranga. Lá, uma de suas regiões é conhecida como Carrapatim. Dizem que é porque quando começou a ocupação do local havia muito carrapato ali. E é no Carrapatim que se formou o grupo de folia que é composto somente por jovens. Entre 10 e 24 anos, os 23 garotos se preparam para o sétimo ano de giro do grupo.

A idade dos três mestres pode em um primeiro momento, nos fazer imaginar um grupo desorganizado ou envolvido com algumas das brigas de bairro que já aconteceram durante a festa natalina na cidade. Mas depois de uma rápida conversa com os três, percebemos que o título de mestre não é por acaso.

O grupo teve início em 2005, depois que o pai de Marley, um dos mestres, sugeriu que se montasse uma folia no bairro deles. Ele já saía no grupo do mestre Adão (do bairro Bela Aurora, próximo dali) e ensinou ao filho a tocar alguns dos instrumentos da folia, bem como seus versos. Junto com outros garotos, que também participavam das folias de outros bairros, Marley deu início ao grupo.

O grande número de componentes se explica pelo papel do grupo no bairro (ou mais especificamente nas duas ruas próximas à casa de Marley). Eles são todos parentes ou amigos que vivem próximos uns dos outros. O grupo sem dúvida é motivo de orgulho e de inspiração para muitos ali.

Depois de subir uma íngrime ladeira (-Essa é a rua Antônio Moreira? –É, tá procurando quem? –O Marley, da folia. -Ah, é só subir o morro e depois descer, sempre reto) me deparo com uma rua cheia de crianças e jovens, mulheres na calçada. Era uma tarde de sábado. –Você sabe onde mora o Marley, da folia? –Ali, mas ele está lá em cima soltando pipa. Um mestre, jovem, que solta pipa com os outros garotos do Carrapatim.

O grupo é hoje uma forma de reunir amigos. Os ensaios (que começam mensais e depois passam a semanais, quando se aproxima dezembro) acontecem aos sábados pela tarde e às vezes começam de forma espontânea. “Às vezes o pessoal vai chegando aqui pra conversar e quando vemos que está todo mundo começamos a tocar e acabamos ensaiando”.

Os mais velhos ensinam os instrumentos aos mais novos. “A gente reveza, tanto nos instrumentos, como para tocar. Todo mundo sabe tocar mais de um instrumento aqui.” Até foliões de outros bairros procuram os jovens rapazes para aprender algum instrumento. “A gente tá aqui pra ensinar mesmo”.

A Folia do Carrapatim é uma das que mais tem material na internet e seus vídeos têm bastante visualizações. Um deles acredita que muitas das pessoas que assistem são foliões dos outros grupos. Isso porque uma das marcas do grupo é a criatividade. Todo ano algo novo é apresentado. Seja nas letras, nos ritmos ou nas roupas, as mudanças chamam a atenção e mostram como a tradição é a cada dia reinventada. “No outro ano tem um monte de grupo imitando as coisas que a gente inventou. Mas aí já criamos coisas novas.” O encontro de folias no centro da cidade se torna uma maneira de um grupo ver o que outro está fazendo de diferente. Uma competição saudável foi construída de forma espontânea.

Essa característica festiva não faz acabar o caráter religioso. Na noite do dia 24, com a saída da bandeira, é feita a reza do terço na casa de Marley e todos os dias (ao meio-dia e às seis da tarde) os foliões fazem orações à bandeira. Os meninos se consideram católicos não praticantes. “Eu já fui evangélico, mas aí desviei”, conta um deles.

Uma das inovações do grupo é uma batida que eles chamam de marcha que fazem ao chegar em um bairro. Uma forma de chamar a atenção dos moradores e depois que eles são conquistados começam os versos que contam a história da viagem dos 3 reis. “A história é uma só, então o que a gente muda é a resposta, o refrão que é cantado por todos”.

Todo ano o grupo viaja para cidades próximas. Desde 2009 começaram a ir até Valença, a cerca de cem km no estado do Rio de Janeiro. Vão de van no dia 24 (inclusive os pequenos, menores de idade) e voltam caminhando pelas cidades do caminho, fazendo o giro e aproveitando para conhecer novos lugares e pessoas. Para muitos, este é o único momento que saem de Juiz de Fora. “Lá em Valença eles gostam de ver a gente se apresentar porque os grupos de lá são diferentes (uma média de 50 pessoas cada um).”

“E as namoradas?”, pergunto. “Ah, eles não acham bom né, mas entendem porque todos nós começamos a namorar depois que já estávamos no grupo. Então elas aceitaram namorar sabendo que seriam 2º plano na época da Folia.”

O mesmo não pode ser feito com os empregos. Os meninos que trabalham tentam conseguir dispensa no serviço ou ficam sem receber os dias não trabalhados. Mas outros acabam participando do giro somente nos dias em que é feito na cidade. Marley foi um dos que já teve que trocar a viagem com o grupo para trabalhar.

As namoradas, em sua maioria, foram conhecidas durante o giro feito nos outros bairros. “A gente pega o telefone e depois que acaba a Folia a gente liga. Porque durante o giro não pode, tem que ser sério”. E o recado é dado aos mais novos. Os que não querem se dedicar ao grupo ficam de fora. E outros até deixaram de brigar depois que passaram a participar. “Eles aprendem a tocar algum instrumento, aí param de brigar, alguns pararam de mexer com drogas, porque se interessa né?”

Esse ano o grupo quer preparar algo diferente para comemorar os sete anos de existência. “A gente quer fazer uma festa mesmo aqui na rua. Tentar montar um palco, ter música junto com a apresentação da folia, para os moradores daqui. Porque o grupo não é nosso, é do bairro.”

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