A pesquisa e o Outro

Há menos de dois anos em Juiz de Fora e eu já vivenciei ou ouvi pelo menos quatro relatos de grupos sociais da cidade que não querem mais a presença da comunidade acadêmica da UFJF em suas comunidades. Dos quatro, três deles envolviam especificamente pessoas da comunicação. Uma constatação séria quando pensamos na dificuldade de alunos e professores em lidarem com pessoas. Incluo os professores porque ao pedirem trabalhos práticos ou incentivarem a iniciação científica, eles se esquecem de uma orientação básica, o respeito ao Outro. Pensar esse descompromisso na comunicação nos deixa ainda mais perplexos. Afinal, a comunicação é uma das áreas que mais depende das pessoas. Sem o Outro, a comunicação simplesmente não existe.

Trabalhar com pessoas não é fácil. Talvez por isso a quantidade de pesquisas dedicadas a estudar o jornal, a novela, o site, o filme… não é preciso dar satisfação a ninguém. Não que esses trabalhos não sejam importantes. Apesar de muitos deles não terem relevância pra mim, pra alguém deve ter.

Essa dificuldade em se trabalhar com as pessoas talvez se deva a esse confronto forçado com o Outro. Confrontar-se com as diferenças, encontrar nas contradições do Outro as suas próprias contradições, submeter o seu trabalho ao julgamento de alguém que sabe mais daquele tema que você.

Apesar disso, alguns se arriscam. Mas se esquecem que é preciso ter respeito por essas pessoas que aceitam tirar um tempo do seu dia para conversar, explicar, contar histórias. Que se deixam filmar, que abrem as portas das suas casas, que compartilham um projeto. E os alunos e professores simplesmente “se esquecem” de voltar e mostrar o que foi feito. E esse rastro de descompromisso vai atrapalhando e dificultando o trabalho de quem vem atrás.

Confesso que comprometer-se com essas pessoas “dá trabalho”. É preciso voltar, fazer cópias, explicar, conversar, mostrar. Há cobranças. As pessoas te ligam pra saber porque você sumiu, quando vai voltar, se o trabalho está pronto ou quando vai ficar. E quando você consegue lidar com isso com sinceridade e transparências, essas mesmas pessoas que te cobram, vão te apoiar. Vão dizer da importância do seu trabalho, vão te dar força para continuar e terminar o que começou, vão compreender que você também erra e vão superar as falhas junto com você, vão entender que algumas coisas que você vai fazer são importantes pro seu trabalho, ainda que não concordem com elas. É aí que está a riqueza do aprendizado, que vai muito além da proposta inicial do seu trabalho. É aí que você vai conseguir ser reconhecido em uma comunidade que não é a sua, e vai ser recebido com um abraço apertado e um sorriso no rosto. É aí que está a recompensa de todo o esforço. A generosidade se torna mútua e a academia vai cumprindo devagar uma pequena parte do seu papel.

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