O trabalho de parto que não foi meu

Pensei em várias formas de escrever esse texto e, por fim, decidi começá-lo por ordem cronológica. Durante a semana das aulas teóricas do curso de doulas, em vários momentos me senti perdida por não ser da área da saúde, seja por nunca ter presenciado um parto, ou mesmo pelo desconhecimento de alguns termos mais técnicos. Outro fator que influenciou nas dúvidas iniciais foi o fato também de nunca ter engravidado, não tendo assim uma experiência pessoal para entender o processo de gestação.

No entanto, aos poucos fui percebendo que o trabalho da doula está relacionado à informação e disso uma jornalista entende, minimamente. A função da doula é ajudar a gestante com as informações que ela precisa para ter um trabalho de parto mais tranquilo, menos doloroso. Além disso, quanto menos humanizado for o parto, maior a importância da doula em fazer companhia para a mulher, massageá-la, instruir os exercícios. Digo isso porque muitas dessas funções podem ser exercidas pelo companheiro da mulher, familiares e equipe médica que estarão mais presentes em um parto humanizado.

O 1º plantão

Indo para o 1º dia de plantão da parte prática, levei minhas anotações para ler no caminho, receosa de não me lembrar das técnicas e de não conseguir ajudar as mulheres que encontraria. Quando cheguei à Maternidade, guardei minhas coisas, coloquei o jaleco e só. Queria sentir como seria esse 1º dia. A fisioterapeuta responsável pelo curso me levou para a enfermaria do trabalho de parto, mas explicou que não poderia ficar lá porque o centro de tratamento semi-intensivo estava precisando dela. Das 3 mulheres que estavam lá, uma faria cesárea porque já aproveitaria para fazer a laqueadura, outra estava no início do trabalho de parto, podendo inclusive voltar para casa (que foi o aconteceu) e outra estava com 4 cm de dilatação.

O que mais me impressionou no 1º dia foi a relação destas mulheres com a equipe da Maternidade. Para começar, a cada momento entra um interno ou médico diferente para fazer o partograma das mulheres, acompanhando a dilatação da mulher e a altura no bebê. Não há uma conversa, nem uma preocupação de explicar o que está acontecendo com elas. Quando isso acontece, é de forma ríspida. Alguns comentários para iniciar os diálogos também são desnecessários. A quantidade de filhos que a mulher já tem não dá o direito aos médicos/internos fazerem comentários do tipo “e aí, vai fechar a fábrica ou ano que vem te vejo aqui de novo?” ou “não acredito, tá no 3º filho e tá demorando desse tanto?”. Estas posturas fazem com que as mulheres não confiem nos profissionais, não respeitem o trabalho dos médicos, não ajudem no trabalho de parto e fiquem mais inseguras e nervosas do que já estão.

Quanto ao fato de compartilhar o quarto com outras gestantes, isso ajuda e atrapalha. Atrapalha porque o fato de dividir uma enfermaria é sinal de falta de espaço na Maternidade, logo falta de estrutura. Com isso, as mulheres não podem contar com a presença do marido ou algum outro familiar durante o trabalho de parto. Como isso não tem solução imediata, as colegas de quarto acabam servindo de companhia umas para as outras, podendo conversar ou apoiar mesmo que seja com um olhar. No 2º dia de plantão, por exemplo, acompanhei duas gestantes com o mesmo ritmo de dilatação. O fato de estarem no mesmo quarto possibilitou que eu ajudasse as duas.

O trabalho de parto em si

Sim, o trabalho de parto demora e é doloroso. Mas o contexto vai influenciar diretamente no grau de dificuldade dele. Nos dois dias que estive na Maternidade não consegui acompanhar as mulheres até o fim de seus trabalhos de parto. As cinco horas de plantão passaram rápido, nem percebi que tinha ficado todo esse período em pé. O cansaço chega no corpo logo depois em que se tira o jaleco. Talvez a dor da outra faça com que eu nem perceba isso, até porque o corpo dela está cansado mesmo antes do trabalho de parto iniciar.

As orientações do curso diziam que a partir dos 5 cm de dilatação já é recomendado que a mulher inicie os exercícios de agachamento ou sentada na bola. A disposição da mulher para fazê-los e escutar as instruções seja da doula, da enfermeira ou do médico vai influenciar no seu desempenho e no do bebê. A mulher tem que se ajudar para ser ajudada. O difícil é dizer isso quando a mulher está sozinha e com dor. Uma das pacientes, já no período de contrações mais intensas, em meio ao incômodo se virou para mim e pediu: “Você pode colocar a mão em mim?”. Estava ao seu lado e imediatamente comecei a fazer massagem em suas costas para aliviar um pouco a dor.

Naquele momento, percebi que eu não precisava fazer muita coisa. Só precisava estar ali, “gastando meu tempo” com aquelas mulheres, para usar uma expressão dos estudos etnográficos. A bolsa dela estourou, mas o bebê não descia. Ela não ajudava, o contexto não ajudava, ela não conseguia fazer os exercícios e com um esforço meu se concentrava para a fazer a respiração correta. Meu horário do plantão já havia acabado. As colegas do curso do turno da tarde já tinham chegado, mas eu não conseguia ir embora. Queria ver o Lucas e não queria deixar sua mãe sozinha. Mais uma vez ela pediu: “Alguém pode colocar a mão em mim?”. A colega respondeu prontamente: “Claro”. E eu, ali do lado, só consegui segurar as lágrimas que já enchiam os meus olhos.

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