Visita anunciada

O Bairro de Lourdes fica no alto de um dos morros de Juiz de Fora, onde há uma gruta de nome Nossa Senhora de Lourdes, cuja igreja é azul. Segundo o Wikipedia, sua principal avenida possui diversos marcos da Estrada Real. Se antes era a Coroa que se fazia presente no bairro, hoje é um condomínio fechado conhecido como Tiguera.

Para chegar à casa de Domingos, mestre da folia de reis do bairro, era preciso descer no ponto de ônibus depois da escola. Perguntei à mulher sentado ao meu lado se ela sabia qual era esse ponto. “É depois do ponto que eu vou ficar”. Minutos depois entra uma mulher loira, “você pode descer junto com aquela mulher, ela é professora da escola”. Essa informação marcava uma das características dos bairros populares brasileiros: conhecer o outro, a vizinhança. Algo tão difícil em muitos bairros hoje em dia.

Chegando na rua de Domingos, perguntei a um mecânico onde era sua casa. “Aquela ali, no rumo que o táxi está indo, com umas flores em cima do muro, está vendo? Acho que ela é verde.” É o Domingos da Folia né?, perguntei. Sim, era ele. Fui recebida por sua filha mais nova, Débora, simpática e doce. “Estava esperando você ligar perdida quando estivesse chegando”. Domingos se mostrou surpreso por terem dito onde era a casa dele. Talvez seja modéstia, afinal mora ali há tanto tempo, filho de Seu Francino (tão conhecido, também por sua forte atuação na região como espírita) e mestre da folia que seu pai lhe deixou de herança.

A Folia teve início com o pai de Seu Francino, que seguiu a tradição até sua morte. Os documentos dizem que faleceu aos 91 anos, mas a vida lhe dava 99. É conhecida como a Folia do Seu Francino, a mais antiga e conhecida da cidade, segundo Domingos. “É uma honra para qualquer um dizer que já saiu na Folia do meu pai. Por isso que muitos jovens de outros bairros que têm tradição de folia vêm sair no nosso grupo.”

Domingos começou a sair na folia quando tinha 8 anos. Naquele tempo os pais só deixavam participar como mascote as crianças que tinham feito a primeira comunhão. Desde então ele segue a tradição da folia porque gosta, foi criado assim, está acostumado. “Na verdade eu participo da Folia de Reis desde que estava na barriga da minha mãe”.

Domingos, que estudou até o ensino fundamental e hoje tem uma filha psicóloga e mestranda na UFJF, aprendeu os versos e a tocar todos os instrumentos pela convivência com o grupo do pai, que era analfabeto. Lendo a Bíblia percebeu que seu pai cantava os versos exatamente como as passagens bíblicas diziam, mesmo não sabendo ler. Segundo Domingos, o pai continuou o grupo do avô pela tradição e por um promessa que fez por causa de uma perna machucada com a mordida de um cachorro. Sempre que dizia que ia largar a folia a perna inchava e a ferida voltava.

Para ele a folia mudou muito, mas acha importante continuar a tradição. O próprio Domingos às vezes inventa novidades como o ano em que saíram com um capacete de obras, no lugar das coroas. “Eu testei isso porque tem lugar que a gente passa que as crianças jogam pedras, por causa do palhaço mesmo e não imaginam que pode machucar. E também porque é uma época que chove.”

Domingos é o único da família que continua fazendo o giro, mesmo dois anos após a morte do pai. Os outros irmãos faleceram e o único que segue vivo mudou de religião. “Acho que foi pra Assembleia”. Aos 51 anos, aposentado, Domingos mostra a serenidade (que a vida e não a idade lhe trouxe) para falar dos outros grupos e suas mudanças. Para ele, os mestres de folia têm que servir de exemplo, principalmente aos mais novos e para estes não lhe faltam conselhos. “Quando alguém entra no grupo eu digo logo que pode ir no funk, no pagode, pode beber, mas só depois do compromisso com o santo. Quer namorar? Então anota o telefone da garota e liga quando o giro terminar”.

O grupo faz a saída e a chegada na própria casa de Domingos, sempre com refeições que reúnem toda a família e também a vizinhança. “Minhas vizinhas aqui começaram a perguntar como faziam para receber a bandeira, se podiam preparar um lanche, mas como a gente sai e chega da minha casa onde tem a ceia e a refeição de chegada, elas decidiram ajudar com a comida da minha casa, cada uma leva um prato e nos reunimos todos ali.”

Além do bairro de Nossa Senhora de Lourdes, o grupo percorre diversos lugares na cidade, além de ir em municípios próximos como Bias Fortes, Santos Dumond, Matias Barbosa e Ewbenck. Segundo Domingos, aumentou muito o número de pessoas que participam da reza (comandada por suas duas filhas) e que recebem o grupo em suas casas. “Há uns 15 anos era muito difícil.”

O grupo sai com no máximo 13 pessoas, já que precisa estar de acordo com números bíblicos: 13 raios de sol, 12 apóstolos, 11 mil virgens, 10 mandamentos, etc. Para fazer o giro, é necessário ter uma autorização da Delegacia, que hoje fica sob responsabilidade da Associação conseguir. Apesar de não ter material na internet, Domingos repete que está começando a se preocupar com isso, além de começar a juntar o material que sai na imprensa local. Fotos não faltam e a ajuda das filhas também não.

As roupas dos integrantes do grupo são sempre feitas nas cores amarela ou azul. E os enfeites ficam a cargo das mulheres da família, bem como as refeições e a reza (como disse antes). Para esse ano Domingos está pensando em algo diferente. Mas ainda não sabe bem o que é. Em 2012 completam 7 anos que o giro sai e chega na sua casa e ele é o responsável. Pela tradição, quem assume a folia deve permenecer por 7 anos. Apesar de estar terminando de cumprir suas obrigações, Domingos quer continuar, o coração fala mais alto que a sensação de dever cumprido.

Os ensaios acontecem todos os sábados a partir de outubro. “Eles até insistem pra eu começar agora, mas eu fico enrolando até outubro, porque senão não posso nem ir nas festas no sábado”. A reunião semanal é mais uma forma de reunir o grupo, já que ensaio mesmo é só quando tem algum novato na turma.

Antes de ir embora, ao perguntar como se escrevia D’alva, Domingos me contou: “Sabe que essa noite eu sonhei com uma jornalista me fazendo entrevista e me perguntando como se escreve o nome do grupo”. Talvez fosse Seu Francino anunciando minha chegada…