Oxum em mim

Água que corre
Lenta, vagarosamente
Às vezes tromba d’água, é verdade
Carregando o que tem pela frente
Sem avisar, sem dar tempo
Água que corre, sempre em frente
Mas às vezes pára
Pra descansar
Pra pensar
Porque precisa ficar
Ou porque precisam que fique
E depois segue, sem voltar
Segue ao encontro e sabe exatamente do que
Água que corre, lavando o caminho, tirando os espinhos
Que dá paz à alma, descansa o corpo e arranca a sede
Que faz a sinfonia da calma
Água que corre, que vai se tornando grande
Justamente pelos pedaços que encontra no caminhar
Pedaços dos encontros
De quem é água corrente

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Quelques haïkus

Très sympathique

L’humeur arrive aux gens

C’est temps de printemps

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Son coeur a gardé

Les mots qu’elle n’a pas dit

L’esprit déborde

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Les enfants dansent

Pour imaginer la vie

Que personne n’espere

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À force de maigrir

Elle a disparu

Dans l’imprécision de ses propres pensées

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En regardant par la fenêtre

J’ai décidé de sauter

À la prochaine page du livre

Só vim pra dançar

Ela resolveu ficar na balada sozinha. Não era a primeira vez. Era sexta-feira e, depois de duas semanas de muito trabalho, ela só queria dançar. Os amigos foram pra outro lugar depois que o showzinho de samba acabou, mas ela resolveu ficar porque a DJ que entrou em cena tinha em seus vinis um repertório de funk e soul. Ela não queria trocar aquele som pela playlist do TVZ. Deixou os casacos pendurados perto da mesa onde estava seu mojito. E dançou.

Um tempo depois um italiano, bonito e de barba cerrada chegou, também sozinho, e pendurou seus casacos ali perto. Buscou uma bebida e começou a dançar. O lugar se enchia de gente e os dois estavam ali dançando, sozinhos. Ainda que mal se olhassem e a distância continuasse, de alguma forma se sentiam cúmplices, talvez pensassem “Não sou o único a dançar sozinho”.

Alguns caras olhavam a moça dançando, mas não se arriscavam. Ela já com uma cerveja na mão, dançava, de olhos fechados. “Típico”, diriam as amigas. Um rapaz resolveu conversar com ela. Mas se a aparência já não era atraente, a abordagem era enfadonha. Antes mesmo de querer saber seu nome, perguntou se ela estava sozinha, com um ar de espanto.

No meio da noite, um indiano que mora em Londres, chegou, muito bem vestido, com um grupo de amigos. Eles também só queriam dançar. E, por isso, dançaram com ela. Sem fazer qualquer pergunta. Apenas dançaram. O italiano continuava ali perto, dançando. Às vezes saía, dava uma volta e retornava. O rapaz inconveniente foi se despedir da moça. Achou ruim que ela não deu seu número de telefone e disse “Você é muito bonita para estar sozinha”. Já na terceira cerveja, ela não conseguia entender qual era a lógica naquela frase.

Depois de um tempo, o italiano pega seu cachecol e com um sorriso se despede da moça, ela se aproxima e ele explica que sua namorada o está esperando em casa (ao menos é nisso que ele acredita). Antes de continuar a se vestir ele pergunta se eles podem dançar juntos uma última música. E dançam. “E por que sua namorada não veio?”, perguntou. Eles haviam brigado. “Precisava sair de casa para arejar a cabeça”. Ele mora naquela cidade há seis anos, mas disse que já estava cansado de lá.  De fato, Alberto tinha o semblante cansado. Eles se despediram.

Ela continuou dançando e depois seguiu caminhando pela rua movimentada até o ponto de ônibus, meio bêbada, meio realizada, meio satisfeita e meio dormindo, com medo de perder o lugar certo de descer. Na cabeça martelava: Mulher sozinha não pode se divertir? Ou mulher não pode se divertir sozinha? Mulher não pode.

Lembranças de uma ex JCA

Estudei no Colégio Estadual Professor José Carlos de Almeida de 1995 a 1999. Soube que a unidade havia sido desativada quando os alunos ocuparam o prédio no final do ano passado. Muita coisa passou pela minha cabeça, em especial as lembranças. Em 2010 ou 2011, voltei a entrar lá pela primeira vez, agora a trabalho, como jornalista, para fazer uma gravação. Vi uma mulher mais velha sentada em uma sala que imaginei que talvez pudesse ser minha professora da 1ª série, Dinorah. Tinha uma vaga semelhança com o semblante que eu tinha em mente. O colégio parecia bem menor do que tinha na lembrança.

Meus irmãos mais velhos também estudaram aí. Na época, só eram oferecidas turmas até a 8ª série (que hoje é 9ª). O ensino médio foi incorporado justamente no ano em que eu entrava na 5ª série e passaria a estudar de manhã. Mas tive que esperar porque com a reorganização das salas, minha turma continuou no turno vespertino. Estudar de manhã era então um sinal de que você estava ficando mais velho, amadurecendo. Continuar a estudar à tarde foi uma frustração.

O trajeto para o colégio no centro da cidade, desde o Jardim América, bairro onde morava, era feito no Chevette, depois substituído por um Passat. E no caminho minha mãe ia parando em todos os pontos de ônibus onde tinha um jovem com a camiseta azul para lhes dar carona. O uniforme tinha a mesma cor da tinta da fachada do colégio.

Na portaria estava Chiquinha, uma mulher mais velha, negra, com cabelos curtos, muito curtos, de óculos de grau. Ela conhecia todos os alunos e nos avisava quando os responsáveis por nos buscar chegavam.

O colégio tem um pátio grande, onde corríamos, jogávamos queimada, pulávamos elástico. Uma vez até tive torcicolo na tentativa de dar um salto quando o nível da brincadeira chega no pescoço. Thábata, Laura, Fernanda, Sarah, Kamylla, eram as amigas que me recordo os nomes. Com Fernanda tenho contato até hoje pelo Facebook, até meu primeiro ano de faculdade ainda saíamos juntas. A Kamylla, reencontrei em 2011, por acaso, quando fui pedir informação em um Studio de pilates perto de casa. Ela estava me atendendo e então perguntou se eu me lembrava dela. Um tempo depois levou uma foto de seu aniversário de 7 anos em que eu estava. Thábata era baixinha, magrinha, do cabelo liso castanho, com franja e óculos, super estudiosa. Fazíamos trabalhos juntas, na minha casa ou na dela. Dos meninos, só me lembro do Luiz Carlos, o mais bonito da turma, moreno, de olhos claros.

Dentro do colégio tinha uma parte com aqueles aparelhos fixos de fazer ginástica presentes nos parques de Goiânia. Lá eu cortei minha cabeça, tentando me pendurar de cabeça para baixo com uma tiara de miçanga na cabeça. Nada grave. Em outro aparelho, cortei a mão quando dedurava um menino aos colegas que brincavam de pique esconde. Esse foi mais grave. Corri para o tanque que tinha embaixo de uma enorme caixa d’água para lavar e resolver sozinha, afinal foi isso que fizeram quando cortei a cabeça. Mas não funcionou. Ligaram para os meus pais e fui para o Hugo, levar uns 10 pontos na mão, os únicos até hoje. Era época de provas e havia machucado justamente a mão que precisava para escrever. A professora avisou na sala que eu era a única que podia responder com letra feia.

Os lanches são uma lembrança à parte. Dois ou quatro alunos eram escolhidos para buscar na cozinha as bandejas com as cumbucas de comida, galinhada era uma delas. Às vezes tinha bolo com iogurt no saquinho ou mesmo suco. Nesses dias fazíamos uma fila na porta da cozinha.

À medida que a idade avançava a quantidade de turmas aumentava. Se antes ia só até a letra B, na 5ª série ia até a letra E.

A localização no centro da cidade era uma grande vantagem. Íamos a pé até o Teatro Goiânia assistir peças de teatro. Me lembro também de uns Jogos Indígenas no Ginásio Rio Vermelho, quando ele ainda funcionava.

Em época de festa junina, cada série preparava a apresentação de uma quadrilha. Os alunos ajudavam vendendo uma espécie de rifa. O desenho que fazia referência à festa tinha uma fogueira com várias chamas. Cada uma custava 50 centavos e à medida que ia vendendo era preciso pintá-las. Quem vendesse mais se tornava a rainha e o rei daquele ano. Consegui esse feito uma vez quando passei de porta em porta no meu prédio que tinha 13 andares com 8 apartamentos em cada.

Uma vez por ano recebíamos a visita também de um grupo de pessoas, com seus jalecos brancos, seus vídeos e seus kits de escovas de dentes. Muito provavelmente eram alunos da UFG na disciplina de saúde coletiva ou algo parecido. Aprendíamos sobre cáries, sobre alimentação, sobre escovação… Por falar em alunos, seja do antigo Magistério ou de alguma licenciatura, sempre tinha também aquele pessoal mais velho, geralmente mulher, que sentava no fundo da sala fazendo suas anotações.

Uma das minhas professoras da 2ª série se chamava Adriana, baixinha, morena, tinha o cabelo liso, preto que ia até a bunda. Na 4ª série foi a vez da Joventilha. Mais velha, rigorosa, tinha métodos de ensino bem dinâmicos. Abandonava por um tempo o livro de ciências sociais, para explicar a História de Goiás. Ensinava matemática com brincadeiras que incluíam árvores e maçãs de papel pregadas no quadro. E a cada resultado de provas dividia a turma em grupos liderados pelo aluno com a nota mais alta que tinha que ajudar os demais colegas. Quando as notas iam subindo, estes alunos se tornavam os líderes de novos grupos. Ela nos fazia ensaiar músicas para apresentar em atividades do colégio. E nesse mesmo ano tivemos o curso do Proerd, ministrado por um policial militar sobre os perigos do uso de drogas, desde álcool e cigarro, até outras mais pesadas. Tinha um livro como material didático e no final teve até formatura do curso, em um ginásio que não me lembro onde era.

Lembranças soltas que de alguma forma fazem parte de mim, da minha história. Que ajudam a compreender o funcionamento do ensino, a criticá-lo, a repensá-lo. Lembranças essas que são perdidas a cada escola fechada e a cada jovem silenciado.

É dia de Reis, em Barcelona

Depois de três anos seguidos acompanhando a festa de reis em Juiz de Fora, em 2016 tive que me contentar com fotos e vídeos enviados pelo whatsapp ou vistos no face. Enquanto no Brasil o ápice da festa é o almoço do dia 6 de janeiro, em Barcelona, na Espanha, as pessoas aguardam o famosa Cavalgada dos Reis na noite do dia 5.

Na Espanha, o dia de reis é muito tradicional e festejado principalmente pelas crianças. Antes do monopólio do Papai Noel e sua entrega de presentes no Natal, a tradição era esperar os reis no dia 6 para receber seus pedidos, seguindo a narrativa bíblica, já que os 3 reis entregaram seus presentes a Jesus no dia 6, quando finalmente chegaram à manjedoura.

Aqui as lojas anunciam em suas vitrines a chegada dos reis e fazem promoção para a compra de presentes. Além disso, no dia 6 de janeiro costuma-se dar doces para as crianças, como nosso dia de São Cosme e Damião.

Me parece que na Espanha o dia de Reis é realmente esperado e celebrado em grande parte das famílias, sendo inclusive feriado nacional. Mas enquanto aqui é uma festa mais voltada para crianças, no Brasil o dia de Reis é uma festa dos grupos de folia com suas comunidades, sejam seus bairros ou toda a cidade reunida em almoços e cafés da manhã comunitários. Enquanto na Espanha celebra-se a espera pelos presentes, no Brasil celebra-se o fim do sacrifício empreendido pelos reis magos para encontrar Jesus.

Sobre a cavalgada em Barcelona, é bom destacar que se trata de uma festa institucionalizada, organizada pela prefeitura (No Brasil, muitas folias também recebem apoios institucionais, mas elas continuam tendo um certo protagonismo em relação à festa). É um desfile por ruas pré determinadas que conta com coreografias e pequenos carros alegóricos, algo mais próximo do que nós brasileiros conhecemos como os desfiles de carnaval, por exemplo, guardadas as devidas proporções. É algo para ser visto, diferentemente das folias de reis no Brasil.

Apesar de se chamar cavalgada, apenas a guarda municipal que vai à frente está montada. As pessoas se aglomeram em todo o trajeto, que não é curto, para ver a passagem dos reis. As sacadas e janelas dos apartamentos pelo caminho ficam abarrotadas de gente, com uma vista privilegiada. Do alto, jogam confetes, serpentina e papel picado, dando um colorido a mais no inverno de casacos pretos, cinzas e marrons, em sua maioria. As pessoas levam escadas para as ruas para poderem ver melhor o desfile.

Confesso que não entendi bem o significado de todos os carros do desfile, mas no geral eles estão relacionados aos reis magos e aos presentes. Há um carro das chupetas que, pelo que entendi, é uma tradição as crianças menores se desfazerem delas nessa data. Há também os correios dos reis magos, onde várias pessoas com cestinhas recolhem as cartas das crianças no trajeto com seus pedidos.

As músicas com toque oriental ou africano acompanham os carros dos respectivos reis, já que uma das narrativas criadas mundialmente é que cada rei representa um continente (a América ainda “não existia” quando tal narrativa foi criada). Por fim, dois carros jogam balas para os que acompanham o desfile.

 

Para minhas Fridas

Só por coincidência esse presente tem a ver com o espetáculo. Na verdade vocês sempre foram minhas fridas. Sofreram por amor o que eu não sofri a vida toda. Sofreram por vocês e por mim. Mas agora confesso que também estou sofrendo por amor. Mais uma vez vou me ausentar de vocês e vocês de mim. Só que dessa vez a distância e o tempo vão ser maiores. O bom disso tudo é que os reencontros são mais especiais. Como mudamos, como crescemos, como melhoramos enquanto pessoas né? Mas ainda temos muito a fazer. Prometo que vou tentar ser mais corajosa em relação aos meus sentimentos, apesar da vaidade, do orgulho, da desconfiança. Vou tentar ser um pouco mais Frida.

Quero pedir uma coisa a vocês também. Continuem assim, sofridas, mas nunca se esqueçam que a gente tem que aprender a viver com a gente. Entender o que estamos pensando e sentindo é mais fácil quando estamos a sós com nós mesmas. A gente sempre depende do outro, mas essa dependência não pode nos deixar doentes. A solidão também é necessária pra gente conseguir conviver bem com outra pessoa. Não sei se esse é o caminho da felicidade, talvez seja só o caminho da serenidade. Quando escrevo isso pra vocês, escrevo pra mim também.

Sei que quando voltar, terei muitas novidade por aqui ou por aí. Quero dizer que mesmo de longe, sempre vou apoiar as decisões e escolhas de vocês. Mesmo que não concorde ou que precise dar bronca antes. Amo muito vocês e vou sempre lhes desejar a maior felicidade do mundo. Que bom que o cosmos e as entidades ajudaram que minha amizade com vocês se transformasse em nossa amizade, em nós.

Esse presente é pra representar isso, a força que eu tenho com vocês e o amor que nos une. Obrigada por tudo e vou sentir muita saudade de vocês!!!

Beijos.

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Quando se conquista junto

No ônibus, a caminho de Goiânia, recebo uma mensagem, sim SMS porque sou da velha guarda, avisando “Não passei”. Não precisava de mais que isso pra perceber a tristeza e o cansaço naquelas palavras. Ela acreditava que ia passar, eu tinha certeza. Senti exatamente o desânimo de um ano antes quando foi minha vez de lhe enviar esta mesma notícia. Naquela hora, sem muito o que dizer, porque não há muito o que dizer, só consegui responder a parte de Cem Anos de Solidão que tinha ficado mais presente depois de reler o livro: A vida anda em círculos, você vai voltar pra Campinas. Eu apenas sentia que ia dar certo e ela penas se esforçava pra acreditar em mim, sempre duvidando da possibilidade ou dela mesma.

Quinze dias depois, com um oceano de distância, recebo outra mensagem dela, agora pelo whatsapp, P-A-S-S-E-I. O texto não foi escrito assim, mas foi assim que eu li. Um orgulho e um alívio por ter alimentado um sentimento que enfim se concretizava. A felicidade só não foi completa porque faltou o abraço e o brinde, mas ela estava lá, na empolgação de contar pra todos os amigos e conhecidos e espalhar: ela também conseguiu.

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