Só vim pra dançar

Ela resolveu ficar na balada sozinha. Não era a primeira vez. Era sexta-feira e, depois de duas semanas de muito trabalho, ela só queria dançar. Os amigos foram pra outro lugar depois que o showzinho de samba acabou, mas ela resolveu ficar porque a DJ que entrou em cena tinha em seus vinis um repertório de funk e soul. Ela não queria trocar aquele som pela playlist do TVZ. Deixou os casacos pendurados perto da mesa onde estava seu mojito. E dançou.

Um tempo depois um italiano, bonito e de barba cerrada chegou, também sozinho, e pendurou seus casacos ali perto. Buscou uma bebida e começou a dançar. O lugar se enchia de gente e os dois estavam ali dançando, sozinhos. Ainda que mal se olhassem e a distância continuasse, de alguma forma se sentiam cúmplices, talvez pensassem “Não sou o único a dançar sozinho”.

Alguns caras olhavam a moça dançando, mas não se arriscavam. Ela já com uma cerveja na mão, dançava, de olhos fechados. “Típico”, diriam as amigas. Um rapaz resolveu conversar com ela. Mas se a aparência já não era atraente, a abordagem era enfadonha. Antes mesmo de querer saber seu nome, perguntou se ela estava sozinha, com um ar de espanto.

No meio da noite, um indiano que mora em Londres, chegou, muito bem vestido, com um grupo de amigos. Eles também só queriam dançar. E, por isso, dançaram com ela. Sem fazer qualquer pergunta. Apenas dançaram. O italiano continuava ali perto, dançando. Às vezes saía, dava uma volta e retornava. O rapaz inconveniente foi se despedir da moça. Achou ruim que ela não deu seu número de telefone e disse “Você é muito bonita para estar sozinha”. Já na terceira cerveja, ela não conseguia entender qual era a lógica naquela frase.

Depois de um tempo, o italiano pega seu cachecol e com um sorriso se despede da moça, ela se aproxima e ele explica que sua namorada o está esperando em casa (ao menos é nisso que ele acredita). Antes de continuar a se vestir ele pergunta se eles podem dançar juntos uma última música. E dançam. “E por que sua namorada não veio?”, perguntou. Eles haviam brigado. “Precisava sair de casa para arejar a cabeça”. Ele mora naquela cidade há seis anos, mas disse que já estava cansado de lá.  De fato, Alberto tinha o semblante cansado. Eles se despediram.

Ela continuou dançando e depois seguiu caminhando pela rua movimentada até o ponto de ônibus, meio bêbada, meio realizada, meio satisfeita e meio dormindo, com medo de perder o lugar certo de descer. Na cabeça martelava: Mulher sozinha não pode se divertir? Ou mulher não pode se divertir sozinha? Mulher não pode.

Quando se conquista junto

No ônibus, a caminho de Goiânia, recebo uma mensagem, sim SMS porque sou da velha guarda, avisando “Não passei”. Não precisava de mais que isso pra perceber a tristeza e o cansaço naquelas palavras. Ela acreditava que ia passar, eu tinha certeza. Senti exatamente o desânimo de um ano antes quando foi minha vez de lhe enviar esta mesma notícia. Naquela hora, sem muito o que dizer, porque não há muito o que dizer, só consegui responder a parte de Cem Anos de Solidão que tinha ficado mais presente depois de reler o livro: A vida anda em círculos, você vai voltar pra Campinas. Eu apenas sentia que ia dar certo e ela penas se esforçava pra acreditar em mim, sempre duvidando da possibilidade ou dela mesma.

Quinze dias depois, com um oceano de distância, recebo outra mensagem dela, agora pelo whatsapp, P-A-S-S-E-I. O texto não foi escrito assim, mas foi assim que eu li. Um orgulho e um alívio por ter alimentado um sentimento que enfim se concretizava. A felicidade só não foi completa porque faltou o abraço e o brinde, mas ela estava lá, na empolgação de contar pra todos os amigos e conhecidos e espalhar: ela também conseguiu.

A pesquisa e o Outro

Há menos de dois anos em Juiz de Fora e eu já vivenciei ou ouvi pelo menos quatro relatos de grupos sociais da cidade que não querem mais a presença da comunidade acadêmica da UFJF em suas comunidades. Dos quatro, três deles envolviam especificamente pessoas da comunicação. Uma constatação séria quando pensamos na dificuldade de alunos e professores em lidarem com pessoas. Incluo os professores porque ao pedirem trabalhos práticos ou incentivarem a iniciação científica, eles se esquecem de uma orientação básica, o respeito ao Outro. Pensar esse descompromisso na comunicação nos deixa ainda mais perplexos. Afinal, a comunicação é uma das áreas que mais depende das pessoas. Sem o Outro, a comunicação simplesmente não existe.

Trabalhar com pessoas não é fácil. Talvez por isso a quantidade de pesquisas dedicadas a estudar o jornal, a novela, o site, o filme… não é preciso dar satisfação a ninguém. Não que esses trabalhos não sejam importantes. Apesar de muitos deles não terem relevância pra mim, pra alguém deve ter.

Essa dificuldade em se trabalhar com as pessoas talvez se deva a esse confronto forçado com o Outro. Confrontar-se com as diferenças, encontrar nas contradições do Outro as suas próprias contradições, submeter o seu trabalho ao julgamento de alguém que sabe mais daquele tema que você.

Apesar disso, alguns se arriscam. Mas se esquecem que é preciso ter respeito por essas pessoas que aceitam tirar um tempo do seu dia para conversar, explicar, contar histórias. Que se deixam filmar, que abrem as portas das suas casas, que compartilham um projeto. E os alunos e professores simplesmente “se esquecem” de voltar e mostrar o que foi feito. E esse rastro de descompromisso vai atrapalhando e dificultando o trabalho de quem vem atrás.

Confesso que comprometer-se com essas pessoas “dá trabalho”. É preciso voltar, fazer cópias, explicar, conversar, mostrar. Há cobranças. As pessoas te ligam pra saber porque você sumiu, quando vai voltar, se o trabalho está pronto ou quando vai ficar. E quando você consegue lidar com isso com sinceridade e transparências, essas mesmas pessoas que te cobram, vão te apoiar. Vão dizer da importância do seu trabalho, vão te dar força para continuar e terminar o que começou, vão compreender que você também erra e vão superar as falhas junto com você, vão entender que algumas coisas que você vai fazer são importantes pro seu trabalho, ainda que não concordem com elas. É aí que está a riqueza do aprendizado, que vai muito além da proposta inicial do seu trabalho. É aí que você vai conseguir ser reconhecido em uma comunidade que não é a sua, e vai ser recebido com um abraço apertado e um sorriso no rosto. É aí que está a recompensa de todo o esforço. A generosidade se torna mútua e a academia vai cumprindo devagar uma pequena parte do seu papel.

Muito além da arte

Este texto foi escrito em resposta à carta feita pelo Pró-reitor de cultura da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), que pode ser lida neste link: http://www.ufjf.br/secom/2012/08/28/sobre-a-arte-e-o-vandalismo-carta-do-pro-reitor-de-cultura/

Este é um texto livre, sem rigor de conceitos, mas para quem quiser algo mais acadêmico minha amiga Tatiane de Assis sugeriu este artigo: http://www.fcsh.unl.pt/revistas/arquivos-da-memoria/ArtPDF/RicardoCamposAM5.pdf

Quando um Pró-reitor de cultura de uma universidade federal faz uma declaração na qual configura a pichação como algo diretamente ligada à questão de segurança e a restringe enquanto uma oposição à arte do grafite me vêm várias preocupações. Vamos por partes.

1- Falar de patrimônio. Algo importante para a formação cultural de um povo. Mas quando falamos em patrimônio público, a qual política estamos nos referindo? Pensemos em um contexto dos últimos 100 anos para facilitar a reflexão. O patrimônio é de grande importância para a própria construção da memória de uma sociedade. Mas da memória de quem estamos falando quando pensamos tal política feita no Brasil? Destaco aqui que só nos últimos governos o IPHAN (e outras instituições parceiras) começou a ter uma preocupação maior com bens que iam além de prédios e construções. O patrimônio imaterial só há pouco tempo teve a atenção que merece. Até porque a cultura é construída principalmente pelas pessoas, mais que pelos concretos e materiais afins.

2-Tratar os pichadores como criminosos. As pessoas que consideram essa possibilidade já pararam para pensar quem são elas? Sobre o que elas pensam? O que a pichação significa para elas? Muito provavelmente muitas dessas pessoas não conhecem sequer a cidade onde moram e nunca passaram para ver e conhecer o que tem depois do Alto dos Passos ou atrás do morro do Bairro Borboleta (e olha que não estou falando do Benfica).

3-O Cine Theatro Central. Estou há seis meses morando em Juiz de Fora e só vi o Cine Theatro aberto uma única vez para o Festival de Música Antiga e Colonial. Que aliás, convenhamos, não é um nome muito atrativo para um festival de música instrumental (talvez seja porque isso remeta a um passado de glória da cidade que construída por negros, ainda os mantêm nas periferias da cidade, às quais me referi acima, presos em outras formas de escravidão). Eu mesma só diminuí meu preconceito quando vi Yamandú Costa na programação, mas mesmo assim fui mais para ver como era o teatro por dentro (bem bonito, aliás) e me deparei com uma orquestra belíssima que com toda certeza não restringia ao que entendo por música antiga ou colonial. Nesse sentido quero questionar a quem o Cine Theatro Central realmente serve, além é claro das colações de grau dos estudantes da UFJF. Para contribuir com uma política cultural da cidade ou mais para alimentar a vaidade dos que se acreditam cult? (Essa impressão eu tive no festival de cinema francês no Cine Alameda, que sempre reserva salas para cinema nacional e também filmes estrangeiros fora da grande rota comercial holiwoodiana, mas que dificilmente lota uma dessas seções. O contrário aconteceu justamente com os filmes do festival – e não é porque eram franceses porque eu mesma já os vi na programação normal do cinema. É cult ir em festival de filme francês e muitos ali prefeririam que ele acontecesse nos cinemas do Shopping Independência, que dificilmente reserva espaço para os filmes que mencionei acima).

4- Depredação do patrimônio. Pode parecer surpresa para muitos, mas os pichadores não costumam ver sua pichação como algo que depreda. Eles veem beleza assim. Isso mesmo meu caros, usando uma expressão bem clichê: A beleza está nos olhos de quem vê. E a qual beleza você foi treinado a apreciar? Não estamos aqui falando de depredação, mas de estratégia de comunicação. Afinal, o Cine Theatro Central é um lugar bem localizado e visado para se comunicar. A beleza e o grito da indignação, do cansaço de ser lembrado apenas em época de eleições, do descaso do poder público com os lugares onde vivem e com a indiferença vivida no dia a dia.

5- Por fim me preocupa ver uma declaração como a do professor vinda de um pró-reitor de cultura. Isso só enfatiza como a cultura é vista em muitas universidades do país e não só. As reitorias com toda sua autonomia não conseguem, em sua maioria, construir políticas convergentes dentro de uma universidade. A cultura não se restringe à arte e a arte não se restringe às salas de exposições e museus.

6-Estava me esquecendo da parte da segurança, à qual o pró-reitor se refere. Mas acho que temos que debater muita coisa antes de chegar nesse ponto.

Me desculpem a ignorância sobre o movimento de pichação em Juiz de Fora. O que escrevo aqui tem como base a cidade de Goiânia e a minha amiga Tatiane de Assis que ajudou na produção do documentário Pixoiano: http://www.youtube.com/watch?v=T10P4Ov_Ub4

Questões de dominação

Historicamente uma sociedade sempre foi dominada pela outra, seja na Europa ou na América pré-colombiana, sejam os romanos, os incas, os aimarás ou os xavantes. Todos eles foram sociedades que dominaram outros povos. E essa dominação sempre abarcou o campo cultural também, sejam os costumes, a língua, a religião ou as festas (ou tudo isso junto).

Por isso, não me venham com esse papo de que hoje vivemos em uma sociedade alienada, em que os Estados Unidos e a Europa dominam a produção cultural mundial e bla bla bla. O povo, que insistem em chamar de massa, pensa, produz, se apropria de conteúdos, cria e as culturas vão se fundindo, se transformando, em uma compelxidade muito maior do que a lógica dita pelos que estudam os meios massivos.

Parafraseando um conhecido, existe vida além da televisão. As pessoas gostam de se reunir, de fazer festa, de conversar. Elas não passam o dia na frente da caja tonta (como diria a Mafalda). É claro que a influência sofrida pelo conteúdo desses meios varia de pessoa a pessoa, em uns mais e em outros menos. Mas não é falando que o povo é alienado e pronto que nós vamos resolver as questões de dominação que aconteceram, acontecem e acontecerão no mundo. É preciso muito mais do que isso.

Em defesa da cidade

Na minha última aula de italiano foi proposto um debate campo x cidade. Na divisão fiquei com a última e no mesmo momento pensei o quão difícil seria essa tarefa. Na busca por argumentos, decidi que não iria defender essa cidade onde vivemos, construída e que cresce para o dinheiro e poder de poucos e pelo suor de muitos.  Mas uma cidade justa, à qual todos têm direito e pela qual todos deveriam lutar.

Decidi falar de uma cidade em que as distâncias não são tão grandes por causa de um transporte público eficiente e de qualidade. Em que os hospitais recebem a todos com respeito e dignidade. Em que as escolas prezam por uma educação pela transformação. E onde a criatividade é incentivada pelos palcos imaginários ou não.

Decidi falar não de uma cidade feita de prédios e carros, mas daquela construída pelas relações humanas. Dos picnics nos bosques, dos namoros nas praças, do futebol das noites de segunda, dos desabafos nos bares, dos mutirões de domingo, das festas nos quintais, das gargalhadas pelas ruas, das histórias presentes nos becos e esquinas. Histórias que devem ser buscadas, encontradas, ouvidas, compartilhadas.

Infelizmente estou falando de uma cidade que muitas pessoas desconhecem e ignoram. De uma cidade em que existe o compartilhar, o vivenciar, o ajudar. De uma cidade que pulsa, que vive, que se transforma e se propõe a mudar. De uma cidade que tem em sua história a cultura do campo enraizada, fundida, presente rotineiramente. De uma cidade que precisa do campo e que existe por causa dele. Mas eu também estou falando de outro campo e não desse das grandes plantações.

Pedrinho e a linguagem tecnológica

Continuando o debate sobre tecnologias, mais um email do Pedro Ivo. Só para esclarecer, o Pedro Ivo é Comunicador Social formado pela UFG e Mestrando em Informação, Comunicação e Novos Media lá em Portugal.

“Eu defendo uma revolução tecnológica no sentido da linguagem sim, porque entendo que a existencia em sí da tecnologia, causa impactos culturais fortíssimos diretos e indiretos para a linguagem.

Ok ícaro… a lingua inglesa é “quadrada” e por isso se encaixa bem nessa maneira comum de pensar a tecnologia, mas é justamente essa lingua que exclui as pessoas na compreenção aprofundada das tecnologias que ela mesma cria. Quando as primeiras linguagens de programação surgiram, eles nao adotaram os comandos em inglês porque “É uma língua extremamente simples, que utiliza menos caracteres (sem acento ou Ç), a sintaxe é mais simples, e tem menos ambiguidade, especialmente com palavras soltas”, mas sim simplesmente porque quem desenvolveu as linguagens e os primeiros padrões de acesso para as tecnologias computacionais eram norte-americanos. se tivesse sido os chineses, as linguagens hoje estariam todas com comandos escritos em chinês e também seria considerada como uma maneira de “padronizar” a tecnologia. Todas as linguas são simples o suficiente.

Mas o que os norte-americanos fizeram fez sentido na época como algo democratizador, porque aquela tecnologia havia sido desenvolvida apenas para os países de lingua inglesa (o problema é que as outras linguas adotaram… basta lembrar as lutas oméricas dos programadores com o código UTF ou UNICODE). Ao meu ver, funciona como uma espécie de “democracia tecnológica à grécia antiga”: todos podem compreender as linguagens adotadas pelas tecnologias? Sim! desde que aqueles que tentam compreender sejam “cidadãos tecnológicos”. Mas para serem “cidadãos tecnológicos”, têm de compreender o inglês, têm que pertencer a uma cultura  onde aquela tecnologia faz sentido de existência como algo necessário, tem de ter um determinado nível de instrução e por aí vai… e quantas pessoas possuem esses pré-requisitos? sempre foram poucas. A tecnologia por sí, em níveis de linguagem sempre foi excludente. Ela é assim desde o início. E se fosse outra lingua que nao o ingles, também seria excludente.

As tecnologias da comunicação e informação em sí representam fielmente as potencialidades de trabalho de uma determinada cultura ou costume.

Exemplo: a própria existencia do computador mantém uma lógica cultural linguística totalmente específica para o contexto de trabalho nos grandes escritórios norte-americanos nos anos 80. Uma prova disso é o modelo de “desktop” para a interface gráfica dos sistemas operacionais, que tentam imitar a mesa de trabalho de um escritório: coisas organizadamente colocadas em cima de uma “mesa” com os arquivos indexados em “pastas” e etc. Isso pra mim também é uma prova de excludencia, nao por este modelo ser padrão, mas sim pelo fato de nao caberem outros modelos. Outras formas de se usar a mesma “mesa”. A questão é que nem todas as outras culturas e linguagens têm de ser obrigadas a compreender as suas “mesas” ou “desktops” da maneira padrão. A padronização nao vem para unificar, mas sim para impor formatos que um mercado precisa dominar para se expandir: Padronizar ajuda na venda.

Ou seja, o desktop se tornou um padrão, não porque é a melhor forma de se organizar as coisas, mas sim porque dentro de um contexto de trabalho específico de uma cultura, aquilo fazia sentido (mas o mercado para facilitar as coisas, impõe uma padronização).
Mas essa discussão é tão complexa… ao mesmo tempo que veio a padronização imposta pelo mercado, eles enxergaram depois de algum tempo que adaptar a tecnologia a outras línguas também era muito rentável… e isso inclusive serviu de desculpa para eles mais uma vez transformarem tecnologias idênticas, em tecnologias “idênticas”, mas com diferenciais “exclusivos”: “a marca X se preocupa com os seus clientes porque faz traduções daquilo que produz”.

Finalizando: acho que seria, pelo menos interessante pensar na tecnologia como uma necessidade cultural (o que já acontece), mas também como uma necessidade linguística não padronizada, caótica e diversa o suficiente para nao caberem padrões. Confesso que isso nao seria nenhum pouco rentável e daria uma bagunça danada na forma de programar… mas mesmo assim acho uma experiência muito válida.”

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