É dia de Reis, em Barcelona

Depois de três anos seguidos acompanhando a festa de reis em Juiz de Fora, em 2016 tive que me contentar com fotos e vídeos enviados pelo whatsapp ou vistos no face. Enquanto no Brasil o ápice da festa é o almoço do dia 6 de janeiro, em Barcelona, na Espanha, as pessoas aguardam o famosa Cavalgada dos Reis na noite do dia 5.

Na Espanha, o dia de reis é muito tradicional e festejado principalmente pelas crianças. Antes do monopólio do Papai Noel e sua entrega de presentes no Natal, a tradição era esperar os reis no dia 6 para receber seus pedidos, seguindo a narrativa bíblica, já que os 3 reis entregaram seus presentes a Jesus no dia 6, quando finalmente chegaram à manjedoura.

Aqui as lojas anunciam em suas vitrines a chegada dos reis e fazem promoção para a compra de presentes. Além disso, no dia 6 de janeiro costuma-se dar doces para as crianças, como nosso dia de São Cosme e Damião.

Me parece que na Espanha o dia de Reis é realmente esperado e celebrado em grande parte das famílias, sendo inclusive feriado nacional. Mas enquanto aqui é uma festa mais voltada para crianças, no Brasil o dia de Reis é uma festa dos grupos de folia com suas comunidades, sejam seus bairros ou toda a cidade reunida em almoços e cafés da manhã comunitários. Enquanto na Espanha celebra-se a espera pelos presentes, no Brasil celebra-se o fim do sacrifício empreendido pelos reis magos para encontrar Jesus.

Sobre a cavalgada em Barcelona, é bom destacar que se trata de uma festa institucionalizada, organizada pela prefeitura (No Brasil, muitas folias também recebem apoios institucionais, mas elas continuam tendo um certo protagonismo em relação à festa). É um desfile por ruas pré determinadas que conta com coreografias e pequenos carros alegóricos, algo mais próximo do que nós brasileiros conhecemos como os desfiles de carnaval, por exemplo, guardadas as devidas proporções. É algo para ser visto, diferentemente das folias de reis no Brasil.

Apesar de se chamar cavalgada, apenas a guarda municipal que vai à frente está montada. As pessoas se aglomeram em todo o trajeto, que não é curto, para ver a passagem dos reis. As sacadas e janelas dos apartamentos pelo caminho ficam abarrotadas de gente, com uma vista privilegiada. Do alto, jogam confetes, serpentina e papel picado, dando um colorido a mais no inverno de casacos pretos, cinzas e marrons, em sua maioria. As pessoas levam escadas para as ruas para poderem ver melhor o desfile.

Confesso que não entendi bem o significado de todos os carros do desfile, mas no geral eles estão relacionados aos reis magos e aos presentes. Há um carro das chupetas que, pelo que entendi, é uma tradição as crianças menores se desfazerem delas nessa data. Há também os correios dos reis magos, onde várias pessoas com cestinhas recolhem as cartas das crianças no trajeto com seus pedidos.

As músicas com toque oriental ou africano acompanham os carros dos respectivos reis, já que uma das narrativas criadas mundialmente é que cada rei representa um continente (a América ainda “não existia” quando tal narrativa foi criada). Por fim, dois carros jogam balas para os que acompanham o desfile.

 

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Beagá

Conheci Belo Horizonte quando me mudei para Juiz de Fora. Passei por lá algumas vezes fazendo o trajeto aeroporto de Confins – Rodoviária, até voltar à cidade com mais calma. Particularmente sou apaixonada por BH (como é conhecida) e acho o lugar bem parecido com Goiânia, tendo bem mais opções culturais.

Pra começar o passeio conheça o Mercado Central da cidade, que é bem grande e tem de tudo pra vender em suas 400 lojas, inclusive animais, parte que é melhor nem passar perto. Além das famosas cachaças mineiras, tem muito artesanato, doces e bares pra comer o famoso fígado com jiló acompanhado da cerveja artesanal mineira Backer ou outra qualquer. O lugar é de fácil acesso, no centro da cidade, com várias linhas de ônibus que passam pelas proximidades.

Cachaças vendidas no mercado

Cachaças vendidas no mercado

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Igreja São Francisco de Assis

Outro lugar tradicional é a Pampulha, famosa obra de Oscar Niemeyer. A lagoa não é das mais cheirosas, mas tem muita coisa pra conhecer por ali. A igreja de São Francisco de Assis tem seu charme inversamente proporcional ao seu tamanho, nada da suntuosidade das igrejas famosas, vale a pena conhecer. Do outro lado, tem o Museu de Arte da Pampulha projetado também por Niemeyer. Quando fui, visitei uma exposição sobre a água da Pampulha, na época acho que não paguei para entrar. Seu jardim também é usado para ensaios fotográficos, seja de casamento, formatura ou outros. Outro lugar para visitar é o Parque Ecológico, ideal para fazer picnic e praticar esportes, por ter uma área verde e gramada bem grande. Lá dentro também tem um restaurante e lanchonete para quem quiser almoçar por lá.

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Se você gosta de museus e exposições, a Praça da Liberdade é um prato cheio. Pensada para abrigar os órgãos do governo quando da transferência da capital de Minas de Ouro Preto para Belo Horizonte, atualmente o lugar se transformou em um circuito cultural. O Centro Cultural do Banco do Brasil tem exposições bastante interessantes com entrada gratuita. O Espaço do Conhecimento da UFMG também tem exposições gratuitas e sessões no planetário com ingressos bem em conta. A dica é assistir a sessão dos astros, que é comentada e mostra as constelações dos signos do zodíaco.

O Museu da Vale é uma estrutura à parte. Com três andares e entrada gratuita você conhece a história de Minas, seus poetas, designers, suas cidades e cultura em exposições interativas. O Centro de Arte Popular não fica exatamente ao redor da praça, mas a um quarteirão, na rua Gonçalves Dias. Quase em frente tem o cinema de rua Belas Artes, com uma programação menos comercial. Dá pra descansar as pernas enquanto assiste um filme e depois comer uma pizza quadrada na pizzaria argentina Liberdade Pizza Sur.

Ali perto também é possível caminhar pelas lojas da Savassi, nem sempre com preços acessíveis, mas com brechós e lojas com roupas e calçados diferentes. Vale conhecer também a loja do estilista mineiro Ronaldo Fraga.

Sobre a noite de Belo Horizonte não posso falar muita coisa porque não saí tanto assim. Mas para quem conhece Goiânia, é bem parecido com relação aos bares. Muitas opções. Eu conheci o Edifício Malleta, na região central da cidade, que tem vários bares pra você escolher. Pra quem gosta de jogos de tabuleiros tem também o Soho Orbi bar. Para dançar fui na Paco Pigalle em uma noite que tocou só música latina.

Além disso, Belo Horizonte oferece muitas opções de shows, festivais e peças teatrais, além de ser a casa de grupos de dança respeitados nacional e internacionalmente. Em uma de minhas idas à cidade consegui ver Romeu e Julieta do Grupo Galpão, tradicional grupo de teatro de rua, na Praça do Papa, uma região mais alta da cidade que tem uma vista bem bonita e que fica próxima ao mirante.

Para quem gosta de feira, domingo tem a Feira Hippie (mais parecida com a Feira do Sol de Goiânia, em um tamanho maior). Ao lado dá pra visitar o Parque Municipal e o Palácio das Artes.

Visita anunciada

O Bairro de Lourdes fica no alto de um dos morros de Juiz de Fora, onde há uma gruta de nome Nossa Senhora de Lourdes, cuja igreja é azul. Segundo o Wikipedia, sua principal avenida possui diversos marcos da Estrada Real. Se antes era a Coroa que se fazia presente no bairro, hoje é um condomínio fechado conhecido como Tiguera.

Para chegar à casa de Domingos, mestre da folia de reis do bairro, era preciso descer no ponto de ônibus depois da escola. Perguntei à mulher sentado ao meu lado se ela sabia qual era esse ponto. “É depois do ponto que eu vou ficar”. Minutos depois entra uma mulher loira, “você pode descer junto com aquela mulher, ela é professora da escola”. Essa informação marcava uma das características dos bairros populares brasileiros: conhecer o outro, a vizinhança. Algo tão difícil em muitos bairros hoje em dia.

Chegando na rua de Domingos, perguntei a um mecânico onde era sua casa. “Aquela ali, no rumo que o táxi está indo, com umas flores em cima do muro, está vendo? Acho que ela é verde.” É o Domingos da Folia né?, perguntei. Sim, era ele. Fui recebida por sua filha mais nova, Débora, simpática e doce. “Estava esperando você ligar perdida quando estivesse chegando”. Domingos se mostrou surpreso por terem dito onde era a casa dele. Talvez seja modéstia, afinal mora ali há tanto tempo, filho de Seu Francino (tão conhecido, também por sua forte atuação na região como espírita) e mestre da folia que seu pai lhe deixou de herança.

A Folia teve início com o pai de Seu Francino, que seguiu a tradição até sua morte. Os documentos dizem que faleceu aos 91 anos, mas a vida lhe dava 99. É conhecida como a Folia do Seu Francino, a mais antiga e conhecida da cidade, segundo Domingos. “É uma honra para qualquer um dizer que já saiu na Folia do meu pai. Por isso que muitos jovens de outros bairros que têm tradição de folia vêm sair no nosso grupo.”

Domingos começou a sair na folia quando tinha 8 anos. Naquele tempo os pais só deixavam participar como mascote as crianças que tinham feito a primeira comunhão. Desde então ele segue a tradição da folia porque gosta, foi criado assim, está acostumado. “Na verdade eu participo da Folia de Reis desde que estava na barriga da minha mãe”.

Domingos, que estudou até o ensino fundamental e hoje tem uma filha psicóloga e mestranda na UFJF, aprendeu os versos e a tocar todos os instrumentos pela convivência com o grupo do pai, que era analfabeto. Lendo a Bíblia percebeu que seu pai cantava os versos exatamente como as passagens bíblicas diziam, mesmo não sabendo ler. Segundo Domingos, o pai continuou o grupo do avô pela tradição e por um promessa que fez por causa de uma perna machucada com a mordida de um cachorro. Sempre que dizia que ia largar a folia a perna inchava e a ferida voltava.

Para ele a folia mudou muito, mas acha importante continuar a tradição. O próprio Domingos às vezes inventa novidades como o ano em que saíram com um capacete de obras, no lugar das coroas. “Eu testei isso porque tem lugar que a gente passa que as crianças jogam pedras, por causa do palhaço mesmo e não imaginam que pode machucar. E também porque é uma época que chove.”

Domingos é o único da família que continua fazendo o giro, mesmo dois anos após a morte do pai. Os outros irmãos faleceram e o único que segue vivo mudou de religião. “Acho que foi pra Assembleia”. Aos 51 anos, aposentado, Domingos mostra a serenidade (que a vida e não a idade lhe trouxe) para falar dos outros grupos e suas mudanças. Para ele, os mestres de folia têm que servir de exemplo, principalmente aos mais novos e para estes não lhe faltam conselhos. “Quando alguém entra no grupo eu digo logo que pode ir no funk, no pagode, pode beber, mas só depois do compromisso com o santo. Quer namorar? Então anota o telefone da garota e liga quando o giro terminar”.

O grupo faz a saída e a chegada na própria casa de Domingos, sempre com refeições que reúnem toda a família e também a vizinhança. “Minhas vizinhas aqui começaram a perguntar como faziam para receber a bandeira, se podiam preparar um lanche, mas como a gente sai e chega da minha casa onde tem a ceia e a refeição de chegada, elas decidiram ajudar com a comida da minha casa, cada uma leva um prato e nos reunimos todos ali.”

Além do bairro de Nossa Senhora de Lourdes, o grupo percorre diversos lugares na cidade, além de ir em municípios próximos como Bias Fortes, Santos Dumond, Matias Barbosa e Ewbenck. Segundo Domingos, aumentou muito o número de pessoas que participam da reza (comandada por suas duas filhas) e que recebem o grupo em suas casas. “Há uns 15 anos era muito difícil.”

O grupo sai com no máximo 13 pessoas, já que precisa estar de acordo com números bíblicos: 13 raios de sol, 12 apóstolos, 11 mil virgens, 10 mandamentos, etc. Para fazer o giro, é necessário ter uma autorização da Delegacia, que hoje fica sob responsabilidade da Associação conseguir. Apesar de não ter material na internet, Domingos repete que está começando a se preocupar com isso, além de começar a juntar o material que sai na imprensa local. Fotos não faltam e a ajuda das filhas também não.

As roupas dos integrantes do grupo são sempre feitas nas cores amarela ou azul. E os enfeites ficam a cargo das mulheres da família, bem como as refeições e a reza (como disse antes). Para esse ano Domingos está pensando em algo diferente. Mas ainda não sabe bem o que é. Em 2012 completam 7 anos que o giro sai e chega na sua casa e ele é o responsável. Pela tradição, quem assume a folia deve permenecer por 7 anos. Apesar de estar terminando de cumprir suas obrigações, Domingos quer continuar, o coração fala mais alto que a sensação de dever cumprido.

Os ensaios acontecem todos os sábados a partir de outubro. “Eles até insistem pra eu começar agora, mas eu fico enrolando até outubro, porque senão não posso nem ir nas festas no sábado”. A reunião semanal é mais uma forma de reunir o grupo, já que ensaio mesmo é só quando tem algum novato na turma.

Antes de ir embora, ao perguntar como se escrevia D’alva, Domingos me contou: “Sabe que essa noite eu sonhei com uma jornalista me fazendo entrevista e me perguntando como se escreve o nome do grupo”. Talvez fosse Seu Francino anunciando minha chegada…

O trabalho de parto que não foi meu

Pensei em várias formas de escrever esse texto e, por fim, decidi começá-lo por ordem cronológica. Durante a semana das aulas teóricas do curso de doulas, em vários momentos me senti perdida por não ser da área da saúde, seja por nunca ter presenciado um parto, ou mesmo pelo desconhecimento de alguns termos mais técnicos. Outro fator que influenciou nas dúvidas iniciais foi o fato também de nunca ter engravidado, não tendo assim uma experiência pessoal para entender o processo de gestação.

No entanto, aos poucos fui percebendo que o trabalho da doula está relacionado à informação e disso uma jornalista entende, minimamente. A função da doula é ajudar a gestante com as informações que ela precisa para ter um trabalho de parto mais tranquilo, menos doloroso. Além disso, quanto menos humanizado for o parto, maior a importância da doula em fazer companhia para a mulher, massageá-la, instruir os exercícios. Digo isso porque muitas dessas funções podem ser exercidas pelo companheiro da mulher, familiares e equipe médica que estarão mais presentes em um parto humanizado.

O 1º plantão

Indo para o 1º dia de plantão da parte prática, levei minhas anotações para ler no caminho, receosa de não me lembrar das técnicas e de não conseguir ajudar as mulheres que encontraria. Quando cheguei à Maternidade, guardei minhas coisas, coloquei o jaleco e só. Queria sentir como seria esse 1º dia. A fisioterapeuta responsável pelo curso me levou para a enfermaria do trabalho de parto, mas explicou que não poderia ficar lá porque o centro de tratamento semi-intensivo estava precisando dela. Das 3 mulheres que estavam lá, uma faria cesárea porque já aproveitaria para fazer a laqueadura, outra estava no início do trabalho de parto, podendo inclusive voltar para casa (que foi o aconteceu) e outra estava com 4 cm de dilatação.

O que mais me impressionou no 1º dia foi a relação destas mulheres com a equipe da Maternidade. Para começar, a cada momento entra um interno ou médico diferente para fazer o partograma das mulheres, acompanhando a dilatação da mulher e a altura no bebê. Não há uma conversa, nem uma preocupação de explicar o que está acontecendo com elas. Quando isso acontece, é de forma ríspida. Alguns comentários para iniciar os diálogos também são desnecessários. A quantidade de filhos que a mulher já tem não dá o direito aos médicos/internos fazerem comentários do tipo “e aí, vai fechar a fábrica ou ano que vem te vejo aqui de novo?” ou “não acredito, tá no 3º filho e tá demorando desse tanto?”. Estas posturas fazem com que as mulheres não confiem nos profissionais, não respeitem o trabalho dos médicos, não ajudem no trabalho de parto e fiquem mais inseguras e nervosas do que já estão.

Quanto ao fato de compartilhar o quarto com outras gestantes, isso ajuda e atrapalha. Atrapalha porque o fato de dividir uma enfermaria é sinal de falta de espaço na Maternidade, logo falta de estrutura. Com isso, as mulheres não podem contar com a presença do marido ou algum outro familiar durante o trabalho de parto. Como isso não tem solução imediata, as colegas de quarto acabam servindo de companhia umas para as outras, podendo conversar ou apoiar mesmo que seja com um olhar. No 2º dia de plantão, por exemplo, acompanhei duas gestantes com o mesmo ritmo de dilatação. O fato de estarem no mesmo quarto possibilitou que eu ajudasse as duas.

O trabalho de parto em si

Sim, o trabalho de parto demora e é doloroso. Mas o contexto vai influenciar diretamente no grau de dificuldade dele. Nos dois dias que estive na Maternidade não consegui acompanhar as mulheres até o fim de seus trabalhos de parto. As cinco horas de plantão passaram rápido, nem percebi que tinha ficado todo esse período em pé. O cansaço chega no corpo logo depois em que se tira o jaleco. Talvez a dor da outra faça com que eu nem perceba isso, até porque o corpo dela está cansado mesmo antes do trabalho de parto iniciar.

As orientações do curso diziam que a partir dos 5 cm de dilatação já é recomendado que a mulher inicie os exercícios de agachamento ou sentada na bola. A disposição da mulher para fazê-los e escutar as instruções seja da doula, da enfermeira ou do médico vai influenciar no seu desempenho e no do bebê. A mulher tem que se ajudar para ser ajudada. O difícil é dizer isso quando a mulher está sozinha e com dor. Uma das pacientes, já no período de contrações mais intensas, em meio ao incômodo se virou para mim e pediu: “Você pode colocar a mão em mim?”. Estava ao seu lado e imediatamente comecei a fazer massagem em suas costas para aliviar um pouco a dor.

Naquele momento, percebi que eu não precisava fazer muita coisa. Só precisava estar ali, “gastando meu tempo” com aquelas mulheres, para usar uma expressão dos estudos etnográficos. A bolsa dela estourou, mas o bebê não descia. Ela não ajudava, o contexto não ajudava, ela não conseguia fazer os exercícios e com um esforço meu se concentrava para a fazer a respiração correta. Meu horário do plantão já havia acabado. As colegas do curso do turno da tarde já tinham chegado, mas eu não conseguia ir embora. Queria ver o Lucas e não queria deixar sua mãe sozinha. Mais uma vez ela pediu: “Alguém pode colocar a mão em mim?”. A colega respondeu prontamente: “Claro”. E eu, ali do lado, só consegui segurar as lágrimas que já enchiam os meus olhos.

A fé e a criatividade do Carrapatim

Um dos bairros que compõe a zona sul de Juiz de Fora é o Ipiranga. Lá, uma de suas regiões é conhecida como Carrapatim. Dizem que é porque quando começou a ocupação do local havia muito carrapato ali. E é no Carrapatim que se formou o grupo de folia que é composto somente por jovens. Entre 10 e 24 anos, os 23 garotos se preparam para o sétimo ano de giro do grupo.

A idade dos três mestres pode em um primeiro momento, nos fazer imaginar um grupo desorganizado ou envolvido com algumas das brigas de bairro que já aconteceram durante a festa natalina na cidade. Mas depois de uma rápida conversa com os três, percebemos que o título de mestre não é por acaso.

O grupo teve início em 2005, depois que o pai de Marley, um dos mestres, sugeriu que se montasse uma folia no bairro deles. Ele já saía no grupo do mestre Adão (do bairro Bela Aurora, próximo dali) e ensinou ao filho a tocar alguns dos instrumentos da folia, bem como seus versos. Junto com outros garotos, que também participavam das folias de outros bairros, Marley deu início ao grupo.

O grande número de componentes se explica pelo papel do grupo no bairro (ou mais especificamente nas duas ruas próximas à casa de Marley). Eles são todos parentes ou amigos que vivem próximos uns dos outros. O grupo sem dúvida é motivo de orgulho e de inspiração para muitos ali.

Depois de subir uma íngrime ladeira (-Essa é a rua Antônio Moreira? –É, tá procurando quem? –O Marley, da folia. -Ah, é só subir o morro e depois descer, sempre reto) me deparo com uma rua cheia de crianças e jovens, mulheres na calçada. Era uma tarde de sábado. –Você sabe onde mora o Marley, da folia? –Ali, mas ele está lá em cima soltando pipa. Um mestre, jovem, que solta pipa com os outros garotos do Carrapatim.

O grupo é hoje uma forma de reunir amigos. Os ensaios (que começam mensais e depois passam a semanais, quando se aproxima dezembro) acontecem aos sábados pela tarde e às vezes começam de forma espontânea. “Às vezes o pessoal vai chegando aqui pra conversar e quando vemos que está todo mundo começamos a tocar e acabamos ensaiando”.

Os mais velhos ensinam os instrumentos aos mais novos. “A gente reveza, tanto nos instrumentos, como para tocar. Todo mundo sabe tocar mais de um instrumento aqui.” Até foliões de outros bairros procuram os jovens rapazes para aprender algum instrumento. “A gente tá aqui pra ensinar mesmo”.

A Folia do Carrapatim é uma das que mais tem material na internet e seus vídeos têm bastante visualizações. Um deles acredita que muitas das pessoas que assistem são foliões dos outros grupos. Isso porque uma das marcas do grupo é a criatividade. Todo ano algo novo é apresentado. Seja nas letras, nos ritmos ou nas roupas, as mudanças chamam a atenção e mostram como a tradição é a cada dia reinventada. “No outro ano tem um monte de grupo imitando as coisas que a gente inventou. Mas aí já criamos coisas novas.” O encontro de folias no centro da cidade se torna uma maneira de um grupo ver o que outro está fazendo de diferente. Uma competição saudável foi construída de forma espontânea.

Essa característica festiva não faz acabar o caráter religioso. Na noite do dia 24, com a saída da bandeira, é feita a reza do terço na casa de Marley e todos os dias (ao meio-dia e às seis da tarde) os foliões fazem orações à bandeira. Os meninos se consideram católicos não praticantes. “Eu já fui evangélico, mas aí desviei”, conta um deles.

Uma das inovações do grupo é uma batida que eles chamam de marcha que fazem ao chegar em um bairro. Uma forma de chamar a atenção dos moradores e depois que eles são conquistados começam os versos que contam a história da viagem dos 3 reis. “A história é uma só, então o que a gente muda é a resposta, o refrão que é cantado por todos”.

Todo ano o grupo viaja para cidades próximas. Desde 2009 começaram a ir até Valença, a cerca de cem km no estado do Rio de Janeiro. Vão de van no dia 24 (inclusive os pequenos, menores de idade) e voltam caminhando pelas cidades do caminho, fazendo o giro e aproveitando para conhecer novos lugares e pessoas. Para muitos, este é o único momento que saem de Juiz de Fora. “Lá em Valença eles gostam de ver a gente se apresentar porque os grupos de lá são diferentes (uma média de 50 pessoas cada um).”

“E as namoradas?”, pergunto. “Ah, eles não acham bom né, mas entendem porque todos nós começamos a namorar depois que já estávamos no grupo. Então elas aceitaram namorar sabendo que seriam 2º plano na época da Folia.”

O mesmo não pode ser feito com os empregos. Os meninos que trabalham tentam conseguir dispensa no serviço ou ficam sem receber os dias não trabalhados. Mas outros acabam participando do giro somente nos dias em que é feito na cidade. Marley foi um dos que já teve que trocar a viagem com o grupo para trabalhar.

As namoradas, em sua maioria, foram conhecidas durante o giro feito nos outros bairros. “A gente pega o telefone e depois que acaba a Folia a gente liga. Porque durante o giro não pode, tem que ser sério”. E o recado é dado aos mais novos. Os que não querem se dedicar ao grupo ficam de fora. E outros até deixaram de brigar depois que passaram a participar. “Eles aprendem a tocar algum instrumento, aí param de brigar, alguns pararam de mexer com drogas, porque se interessa né?”

Esse ano o grupo quer preparar algo diferente para comemorar os sete anos de existência. “A gente quer fazer uma festa mesmo aqui na rua. Tentar montar um palco, ter música junto com a apresentação da folia, para os moradores daqui. Porque o grupo não é nosso, é do bairro.”

Irmã Gabriela era brava como uma onça

Em mais uma andança de minha vida, saí de Juiz de Fora rumo a Londrina. Como de costume, o medo de perder ônibus, avião ou coisas similares me fez chegar com quase uma hora de antecedência na rodoviária, numa manhã fria e cinza depois de uma tempestade de granizo na noite anterior.

Sentada à espera do ônibus, ia começar a ler um texto sobre catolicismo popular quando senta ao meu lado uma senhora e diz: “É dramática!”. Eu pergunto: “O quê?”. E ela responde: “A vida. A vida é dramática”. E assim começou um diálogo que duraria cerca de 30 minutos.

“É até estranho quando as coisas dão certo né? Saí de casa achando que ia pegar o ônibus das 8h30, mas o moço disse que não tem esse horário. Mas pelo menos consegui chegar a tempo.” Ela olha para a passagem e diz “Nossa, meu ônibus é só 10h15. Que que eu vou ficar fazendo aqui até lá.” E olhando para as plantas do outro lado diz como as acha bonitas “Você sabe que planta é aquela?” Mas antes que eu pudesse responder minha mãe me liga porque não tinha entendido nada da mensagem que eu tinha mandado (tinha chegado toda cortada). “Estou indo pra Londrina agora, você acha que eu ia viajar sem te avisar?” Quando desligo, a senhora, que se chama Terezinha, me pergunta se era o namorado e respondo que era minha mãe. “Ah, pra mãe tem que avisar mesmo.”

Terezinha volta ao assunto da planta, digo que não sei qual é e ela me conta que sempre teve curiosidade de vê-la de perto. Eu sugiro que ela aproveite que vai ter que esperar pelo ônibus e vá até lá olhar. E ela se entusiasma com a ideia e complementa: “E ainda posso pegar um mudinha. Vou pegar uma pra você também.” E lá vai dona Terezinha.

Com toda a tranquilidade que a idade, a sabedoria e a espera do ônibus permitem, ela olha cuidadosamente a planta. Até que um funcionário da rodoviária grita “Senhora, não pode ficar aí não, é proibido.” Ela olha pra trás e dá de ombros e segue na missão de encontrar a muda.

Como ela não saiu de lá, um outro funcionário foi em sua direção, enquanto alguns ônibus passavam por ali. “Senhora, não pode ficar aqui não, é proibido.” Depois de ter recolhido uma muda e procurando a segunda que seria dada pra mim, ela responde: “Mas eu só quero pegar uma mudinha.” O funcionário, com toda a pressa arranca um pedaço da planta e entrega para a senhora enquanto a conduz de volta para a parte de embarque.

Terezinha volta rindo e me contando o que o funcionário tinha dito e mostra o pedaço da planta que ele arrancou. “Isso aqui não dá pra plantar não, olha como ele arrancou.” E segue rindo. “Bom, acho que dá pra fazer alguma coisa com essas folhas, é que eu faço uns cartões pra vender e com o dinheiro compro presentes para os meninos da casa de menores infratores de Belo Horizonte.”

Cuidadosamente ela começa a arrancar folha por folha e a limpá-las. “Eu estou fazendo isso porque não tem nada pra fazer até o ônibus chegar. Tem que arrumar um serviço né.” Terezinha então me conta que é freira, desde menina, não quis nem falar quando entrou no convento, mas contou várias histórias, dos lugares onde morou, da família e dos amigos. De muitos lembrava apenas do rosto, não era boa para guardar nomes. “Qual seu nome mesmo?”

“Ah, em uma das cidades que eu morei tinha a irmã Gabriela, era brava como uma onça, feia e gorda. Agora não esqueço mais seu nome.” Meu ônibus chegou e Terezinha queria me dar alguma coisa, já que a muda da planta ficou pra trás. Ela procura na sua bolsa e a única coisa que encontra são dois santinhos de Santo Expedito. “Você é católica? Ahh, graças a Deus. Toma um pra você e outro pra sua mãe.” E vai conversando comigo até a porta do ônibus. Vou embora e Terezinha segue esperando sentada, agora sozinha, no banco da rodoviária.

Pra lá da avenida Noel Rosa

Domingo, 9 horas da manhã. Depois da avenida Noel Rosa, o Conjunto Eldorado Oeste. Algumas famílias se reúnem ali quinzenalmente para acompanharem o andamento da construção de suas casas. No total serão 150 famílias beneficiadas, mas nem todas estavam presentes. Quem não vai paga o correspondente a dois sacos de cimento. O restante conversa, debate e põe a mão na massa. Algumas mulheres ficam responsáveis por cuidar das crianças, outras fazem questão de ajudar na obra, uma passa mal, mas com certeza era por um bom motivo. Ter sua casa própria. Não importa se é pequena, se demora um ano ou mais pra ficar pronta ou se é em um bairro um pouco distante do centro da cidade. Estas serão suas casas.

A União Estadual por Moradia Popular atua em Goiás na construção de projetos habitacionais junto às comunidades. Até que se dê início a uma obra são pelo menos três anos de reuniões com os futuros proprietários. Os mutirões acontecem em poucas horas em alguns domingos, enquanto serventes trabalham durante a semana. O terreno e o material de construção são comprados com o dinheiro dos moradores. O restante é financiado pela Caixa Econômica. Dez por cento do salário mínimo pago por doze anos é o valor que a população paga.

O projeto do Eldorado Oeste é composto por quatro etapas. Cada uma beneficia 150 famílias e a maioria delas já não precisa mais pagar aluguel, a atuação do movimento ali já está em sua fase final.

Enquanto caminhamos pelas obras, Manoel Divino, um dos coordenadores nacionais, nos explica como funciona tudo. “E a minha casa, onde será?”, pergunta uma mulher. “Qual é a sua?”, responde Manoel. A rua, com lote e número está escrito em um pequeno papel guardado junto a outros documentos. O endereço da futura casa já existe. Tudo isso é acompanhado por um assistente social da Caixa, que faz a chamada dos presentes.

Seu Válter é integrante do movimento. Participava da luta por moradia em Goiânia mesmo antes da existência da União, ainda na década de 70 quando surgia o Jardim Nova Esperança, esse que aparece escrito em um Citybus que circula pela cidade. Seu Válter mora em Trindade e desde 84 já tem sua casa própria. Filósofo e Historiador diz que faz questão de continuar ajudando na luta.

Para conhecer uma casa pronta fomos à residência de dona Noêmia, que mora com a mãe Emília e a neta Fernanda. O convite de casamento da mais nova está na  mesa e passa de mão em mão. Depois de um café percebemos a cara que cada um dá à casa que antes parecia tão igual às outras.

No Eldorado Oeste, que fica depois do Conjunto Vera Cruz II, as ruas são asfaltadas, há energia, água, ônibus, escola, posto de saúde e comércio (tudo isso é claro com todas as deficiências que conhecemos bem). A infra-estrutura do bairro é uma das preocupações da União que busca a construção das casas em setores consolidados e que de fato fazem parte da cidade. Ao contrário do que acontece com os residenciais construídos pela prefeitura. Um exemplo são as casas do Residencial Jardins do Cerrado, distante da cidade o objetivo é valorizar os terrenos que ficam entre o novo bairro e o restante de Goiânia. (Veja localização: http://wikimapia.org/#lat=-16.6725376&lon=-49.4056892&z=14&l=9&m=b)

A luta pela moradia se mostra como mais uma das diversas lutas pelo direito à cidade. Ter acesso, fazer parte, se sentir parte. Acho que as pessoas não querem muito, não é mesmo?

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