Oxum em mim

Água que corre
Lenta, vagarosamente
Às vezes tromba d’água, é verdade
Carregando o que tem pela frente
Sem avisar, sem dar tempo
Água que corre, sempre em frente
Mas às vezes pára
Pra descansar
Pra pensar
Porque precisa ficar
Ou porque precisam que fique
E depois segue, sem voltar
Segue ao encontro e sabe exatamente do que
Água que corre, lavando o caminho, tirando os espinhos
Que dá paz à alma, descansa o corpo e arranca a sede
Que faz a sinfonia da calma
Água que corre, que vai se tornando grande
Justamente pelos pedaços que encontra no caminhar
Pedaços dos encontros
De quem é água corrente

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Lembranças de uma ex JCA

Estudei no Colégio Estadual Professor José Carlos de Almeida de 1995 a 1999. Soube que a unidade havia sido desativada quando os alunos ocuparam o prédio no final do ano passado. Muita coisa passou pela minha cabeça, em especial as lembranças. Em 2010 ou 2011, voltei a entrar lá pela primeira vez, agora a trabalho, como jornalista, para fazer uma gravação. Vi uma mulher mais velha sentada em uma sala que imaginei que talvez pudesse ser minha professora da 1ª série, Dinorah. Tinha uma vaga semelhança com o semblante que eu tinha em mente. O colégio parecia bem menor do que tinha na lembrança.

Meus irmãos mais velhos também estudaram aí. Na época, só eram oferecidas turmas até a 8ª série (que hoje é 9ª). O ensino médio foi incorporado justamente no ano em que eu entrava na 5ª série e passaria a estudar de manhã. Mas tive que esperar porque com a reorganização das salas, minha turma continuou no turno vespertino. Estudar de manhã era então um sinal de que você estava ficando mais velho, amadurecendo. Continuar a estudar à tarde foi uma frustração.

O trajeto para o colégio no centro da cidade, desde o Jardim América, bairro onde morava, era feito no Chevette, depois substituído por um Passat. E no caminho minha mãe ia parando em todos os pontos de ônibus onde tinha um jovem com a camiseta azul para lhes dar carona. O uniforme tinha a mesma cor da tinta da fachada do colégio.

Na portaria estava Chiquinha, uma mulher mais velha, negra, com cabelos curtos, muito curtos, de óculos de grau. Ela conhecia todos os alunos e nos avisava quando os responsáveis por nos buscar chegavam.

O colégio tem um pátio grande, onde corríamos, jogávamos queimada, pulávamos elástico. Uma vez até tive torcicolo na tentativa de dar um salto quando o nível da brincadeira chega no pescoço. Thábata, Laura, Fernanda, Sarah, Kamylla, eram as amigas que me recordo os nomes. Com Fernanda tenho contato até hoje pelo Facebook, até meu primeiro ano de faculdade ainda saíamos juntas. A Kamylla, reencontrei em 2011, por acaso, quando fui pedir informação em um Studio de pilates perto de casa. Ela estava me atendendo e então perguntou se eu me lembrava dela. Um tempo depois levou uma foto de seu aniversário de 7 anos em que eu estava. Thábata era baixinha, magrinha, do cabelo liso castanho, com franja e óculos, super estudiosa. Fazíamos trabalhos juntas, na minha casa ou na dela. Dos meninos, só me lembro do Luiz Carlos, o mais bonito da turma, moreno, de olhos claros.

Dentro do colégio tinha uma parte com aqueles aparelhos fixos de fazer ginástica presentes nos parques de Goiânia. Lá eu cortei minha cabeça, tentando me pendurar de cabeça para baixo com uma tiara de miçanga na cabeça. Nada grave. Em outro aparelho, cortei a mão quando dedurava um menino aos colegas que brincavam de pique esconde. Esse foi mais grave. Corri para o tanque que tinha embaixo de uma enorme caixa d’água para lavar e resolver sozinha, afinal foi isso que fizeram quando cortei a cabeça. Mas não funcionou. Ligaram para os meus pais e fui para o Hugo, levar uns 10 pontos na mão, os únicos até hoje. Era época de provas e havia machucado justamente a mão que precisava para escrever. A professora avisou na sala que eu era a única que podia responder com letra feia.

Os lanches são uma lembrança à parte. Dois ou quatro alunos eram escolhidos para buscar na cozinha as bandejas com as cumbucas de comida, galinhada era uma delas. Às vezes tinha bolo com iogurt no saquinho ou mesmo suco. Nesses dias fazíamos uma fila na porta da cozinha.

À medida que a idade avançava a quantidade de turmas aumentava. Se antes ia só até a letra B, na 5ª série ia até a letra E.

A localização no centro da cidade era uma grande vantagem. Íamos a pé até o Teatro Goiânia assistir peças de teatro. Me lembro também de uns Jogos Indígenas no Ginásio Rio Vermelho, quando ele ainda funcionava.

Em época de festa junina, cada série preparava a apresentação de uma quadrilha. Os alunos ajudavam vendendo uma espécie de rifa. O desenho que fazia referência à festa tinha uma fogueira com várias chamas. Cada uma custava 50 centavos e à medida que ia vendendo era preciso pintá-las. Quem vendesse mais se tornava a rainha e o rei daquele ano. Consegui esse feito uma vez quando passei de porta em porta no meu prédio que tinha 13 andares com 8 apartamentos em cada.

Uma vez por ano recebíamos a visita também de um grupo de pessoas, com seus jalecos brancos, seus vídeos e seus kits de escovas de dentes. Muito provavelmente eram alunos da UFG na disciplina de saúde coletiva ou algo parecido. Aprendíamos sobre cáries, sobre alimentação, sobre escovação… Por falar em alunos, seja do antigo Magistério ou de alguma licenciatura, sempre tinha também aquele pessoal mais velho, geralmente mulher, que sentava no fundo da sala fazendo suas anotações.

Uma das minhas professoras da 2ª série se chamava Adriana, baixinha, morena, tinha o cabelo liso, preto que ia até a bunda. Na 4ª série foi a vez da Joventilha. Mais velha, rigorosa, tinha métodos de ensino bem dinâmicos. Abandonava por um tempo o livro de ciências sociais, para explicar a História de Goiás. Ensinava matemática com brincadeiras que incluíam árvores e maçãs de papel pregadas no quadro. E a cada resultado de provas dividia a turma em grupos liderados pelo aluno com a nota mais alta que tinha que ajudar os demais colegas. Quando as notas iam subindo, estes alunos se tornavam os líderes de novos grupos. Ela nos fazia ensaiar músicas para apresentar em atividades do colégio. E nesse mesmo ano tivemos o curso do Proerd, ministrado por um policial militar sobre os perigos do uso de drogas, desde álcool e cigarro, até outras mais pesadas. Tinha um livro como material didático e no final teve até formatura do curso, em um ginásio que não me lembro onde era.

Lembranças soltas que de alguma forma fazem parte de mim, da minha história. Que ajudam a compreender o funcionamento do ensino, a criticá-lo, a repensá-lo. Lembranças essas que são perdidas a cada escola fechada e a cada jovem silenciado.

Quando se conquista junto

No ônibus, a caminho de Goiânia, recebo uma mensagem, sim SMS porque sou da velha guarda, avisando “Não passei”. Não precisava de mais que isso pra perceber a tristeza e o cansaço naquelas palavras. Ela acreditava que ia passar, eu tinha certeza. Senti exatamente o desânimo de um ano antes quando foi minha vez de lhe enviar esta mesma notícia. Naquela hora, sem muito o que dizer, porque não há muito o que dizer, só consegui responder a parte de Cem Anos de Solidão que tinha ficado mais presente depois de reler o livro: A vida anda em círculos, você vai voltar pra Campinas. Eu apenas sentia que ia dar certo e ela penas se esforçava pra acreditar em mim, sempre duvidando da possibilidade ou dela mesma.

Quinze dias depois, com um oceano de distância, recebo outra mensagem dela, agora pelo whatsapp, P-A-S-S-E-I. O texto não foi escrito assim, mas foi assim que eu li. Um orgulho e um alívio por ter alimentado um sentimento que enfim se concretizava. A felicidade só não foi completa porque faltou o abraço e o brinde, mas ela estava lá, na empolgação de contar pra todos os amigos e conhecidos e espalhar: ela também conseguiu.

Próximo post

Olá a todos! O próximo post é uma matéria que eu fiz com a Giovanna Beltrão sobre a apresentação dos maracatu Piaba de Ouro e Leão Coroado no Encontro de Culturas do ano passado. A Giovanna trabalhou no encontro desse ano de novo e tem vários textos novos no site também: http://www.encontrodecultruas.com.br

Próximo post

Olá.. o próximo post é uma matéria que escrevi sobre uma oficina de teatro grego no Encontro de Culturas da Chapada dos Veadeiros.

Aproveitem!

A internet para algumas pessoas

Como eu esqueci de escrever no texto anterior, vou deixar pra este post os exemplos do alcance que a internet pode ter, a partir dos projetos que eu paticipo. Bom que não preciso pensar em nenhum assunto pra manter o blog atualizado. Vamos lá:

1-      Bom, no último dia 1º a Web TV Magnífica Mundi (Projeto de Extensão da Faculdade de Comunicação e Biblioteconomia da UFG) fez mais uma transmissão ao vivo de programas produzidos e realizados por estudantes. Com a qualidade da transmissão não tão boa assim (mas melhor que a web TV do FICA, pelo menos), alguns programas conseguiram ter a audiência de 25 internautas. Muitos podem pensar: pouca gente. Mas pelo menos foram 25 pessoas que deixaram de ver ou acessar qualquer outro conteúdo pra assistir programas com propostas de conteúdo diferentes. 1 ponto para a internet. (www.facomb.ufg.br/magnifica)

2-      Outro projeto é o Trombas e Formoso: a vitória dos camponeses, sobre uma revolta ocorrida no norte de Goiás na década de 50, em que os camponeses conseguiram o título de suas terras. Colocamos o site (www.trombaseformoso.com) no ar em dezembro do ano passado para apresentar no Trabalho de Conclusão de Curso. Poderíamos ter parado de pagar (16 reais de mensalidade, sendo que alguns domínios são gratuitos) e deixado o site fora do ar, afinal nem sabemos quantas pessoas acessam nosso trabalho. Mas resolvemos deixá-lo no ar. Nesse ano o bisneto do José Porfírio, um dos líderes da revolta, nos enviou um email parabenizando nosso trabalho e dizendo que não conhecia a história de seu bisavô e que ia procurar saber mais sobre ela. 2 pontos para a internet.

3-      Algum tempo depois a neta do Geraldo Tibúrcio, outro participante da revolta, nos mandou um email dizendo que tinha uma foto de seu avô (que estava faltando no site) e também uma carta que ele tinha começado a escrever antes de morrer. 3 pontos para a internet.

4-      Por último, um professor da rede estadual da cidade de Bonfinópolis pediu que seus alunos acessassem o site da revolta para que eles pudessem debater essa parte da história de Goiás. Fomos convidados para explicar como foi o processo de construção do site e do documentário que fizemos (que também está disponível no site) a partir da história oral dos sobreviventes. Nos deparamos com 35 alunos do 3º ano do Ensino Médio que prestaram atenção na nossa fala que durou duas horas, perguntando sobre o site, a revolta, a ditadura e sobre as pessoas que conhecemos, surpreendendo nossas expectativas. Mais um ponto para a internet.

Bem, só queria mostrar mais alguns aspectos sobre a internet para enriquecer a reflexão.

A internet para uma pessoa

Às vezes fico pensando no argumento das pessoas que não acreditam na internet enquanto ferramenta mais democrática de acesso a informações. É bom deixar claro primeiro que a internet não é uma realidade na vida de muuuuitas pessoas. Mas é fato que ela é mais acessível hoje que há alguns anos. Além disso, a internet está presente em cidades onde não há nem teatro, nem cinema. Se tornando assim uma opção de lazer para muitos brasileiros.

Agora voltando ao argumento das pessoas que citei no início, elas acreditam que a internet não é um meio democrático porque as mesmas grandes corporações que dominam televisão, cinema, rádio e jornais também estão na internet (concordo) e que ainda é muito maior o número de pessoas que vêem esse material do que o das mídias alternativas, por exemplo (também estou de acordo).

Mas aí eu me pergunto. O que é mais fácil: conseguir a concessão de uma rádio, canal de televisão ou um espaço no jornal pra colocar um texto seu ou criar um blog, um canal no youtube, um perfil em algum site como twitter, Orkut, facebook (e tantos outros)?

Aí podem me perguntar: mas quantas pessoas vão ver o que você está mostrando? Eu respondo: não importa! Uma pessoa que seja já é o suficiente. Uma pessoa que teve acesso, viu e com certeza vai levar alguma coisa disso. Essa pessoa pode também mostrar para outras que também vão levar alguma coisa do que viram e por aí vai.

É por isso que não concordo quando dizem pura e simplesmente que a internet não é democrática. Ela não é perfeita, muitas coisas estão por trás dessa poderosa ferramenta. Por isso a necessidade de uma política pública que democratize o acesso a ela.

Mas o debate é mais complexo que isso, aqui foi só um pequeno texto pra dar início a uma reflexão.

“O conhecimento pertinente deve enfrentar a complexidade. […] Os desenvolvimentos próprios a nossa era planetária nos confrontam cada vez mais e de maneira cada vez mais inelutável com os desafios da complexidade.” Edgar Morin – Os sete saberes necessários à educação do futuro

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