Em defesa da cidade

Na minha última aula de italiano foi proposto um debate campo x cidade. Na divisão fiquei com a última e no mesmo momento pensei o quão difícil seria essa tarefa. Na busca por argumentos, decidi que não iria defender essa cidade onde vivemos, construída e que cresce para o dinheiro e poder de poucos e pelo suor de muitos.  Mas uma cidade justa, à qual todos têm direito e pela qual todos deveriam lutar.

Decidi falar de uma cidade em que as distâncias não são tão grandes por causa de um transporte público eficiente e de qualidade. Em que os hospitais recebem a todos com respeito e dignidade. Em que as escolas prezam por uma educação pela transformação. E onde a criatividade é incentivada pelos palcos imaginários ou não.

Decidi falar não de uma cidade feita de prédios e carros, mas daquela construída pelas relações humanas. Dos picnics nos bosques, dos namoros nas praças, do futebol das noites de segunda, dos desabafos nos bares, dos mutirões de domingo, das festas nos quintais, das gargalhadas pelas ruas, das histórias presentes nos becos e esquinas. Histórias que devem ser buscadas, encontradas, ouvidas, compartilhadas.

Infelizmente estou falando de uma cidade que muitas pessoas desconhecem e ignoram. De uma cidade em que existe o compartilhar, o vivenciar, o ajudar. De uma cidade que pulsa, que vive, que se transforma e se propõe a mudar. De uma cidade que tem em sua história a cultura do campo enraizada, fundida, presente rotineiramente. De uma cidade que precisa do campo e que existe por causa dele. Mas eu também estou falando de outro campo e não desse das grandes plantações.

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Uma história esquecida

Memória e esquecimento, pessoas e personagens, morte e desaparecimento, lutas e conquistas, revoltas, alegrias, medo, camponeses e o estado de Goiás. Palavras que ajudam a contar uma história, que até o tempo tenta apagar. Mas o desejo de que ela reviva e não nos deixe esquecer a resistência de brasileiros pela posse de um pedaço de terra faz com que o passado seja recontado e reaprendido.

A Revolta de Trombas e Formoso, ocorrida na década de 50 no norte de Goiás, marcou uma das lutas camponesas mais importantes do Brasil, cujos integrantes conseguiram o título de suas terras depois de anos de conflitos armados com fazendeiros e a polícia.

Essa parte da história de Goiás não é vista nos livros escolares. Essa parte da história de Goiás é pouco lembrada pela imprensa. Essa parte da história de Goiás é esquecida nas falas dos políticos. Essa parte da história de Goiás é apagada da memória do povo goiano.

E a gente se pergunta: Por quê?

Foi com esse questionamento que surgiu o Projeto de Extensão Trombas e Formoso: a vitória dos camponeses, na Faculdade de Comunicação e Biblioteconomia da Universidade Federal de Goiás. Mas este projeto não surgiu assim, de repente. Ele faz parte de um processo de aprendizado de um grupo de alunos que vê a comunicação com uma função a mais do que a praticada na grande mídia goiana e brasileira, e com um algo a mais do que o que é aprendido nas disciplinas do curso.

Esse algo a mais foi aprendido junto a um coletivo, a Magnífica Mundi, que tenta compreender a sociedade a partir do povo, do subalterno, daqueles que não são ouvidos, daqueles que são excluídos, daqueles que são invisibilizados.

A Revolta de Trombas e Formoso é tudo isso. E foi a vontade de conhecer essas pessoas e personagens, resgatar a memória e o esquecimento, entender a morte e o desaparecimento, reconstruir as lutas e conquistas, valorizar as revoltas e alegrias que moveu os integrantes desse projeto para um caminho de volta ao passado, mas não tão distante do nosso presente. Para isso contamos com a ajuda de várias pessoas, as quais sempre agradeceremos, e a orientação de três professores: Juarez Maia, coordenador do projeto, Nilton José, eterno incentivador de sonhos, e Rosana Borges, que muito contribui na sistematização teórica e metodológica deste trabalho.