Em defesa da cidade

Na minha última aula de italiano foi proposto um debate campo x cidade. Na divisão fiquei com a última e no mesmo momento pensei o quão difícil seria essa tarefa. Na busca por argumentos, decidi que não iria defender essa cidade onde vivemos, construída e que cresce para o dinheiro e poder de poucos e pelo suor de muitos.  Mas uma cidade justa, à qual todos têm direito e pela qual todos deveriam lutar.

Decidi falar de uma cidade em que as distâncias não são tão grandes por causa de um transporte público eficiente e de qualidade. Em que os hospitais recebem a todos com respeito e dignidade. Em que as escolas prezam por uma educação pela transformação. E onde a criatividade é incentivada pelos palcos imaginários ou não.

Decidi falar não de uma cidade feita de prédios e carros, mas daquela construída pelas relações humanas. Dos picnics nos bosques, dos namoros nas praças, do futebol das noites de segunda, dos desabafos nos bares, dos mutirões de domingo, das festas nos quintais, das gargalhadas pelas ruas, das histórias presentes nos becos e esquinas. Histórias que devem ser buscadas, encontradas, ouvidas, compartilhadas.

Infelizmente estou falando de uma cidade que muitas pessoas desconhecem e ignoram. De uma cidade em que existe o compartilhar, o vivenciar, o ajudar. De uma cidade que pulsa, que vive, que se transforma e se propõe a mudar. De uma cidade que tem em sua história a cultura do campo enraizada, fundida, presente rotineiramente. De uma cidade que precisa do campo e que existe por causa dele. Mas eu também estou falando de outro campo e não desse das grandes plantações.

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Pra lá da avenida Noel Rosa

Domingo, 9 horas da manhã. Depois da avenida Noel Rosa, o Conjunto Eldorado Oeste. Algumas famílias se reúnem ali quinzenalmente para acompanharem o andamento da construção de suas casas. No total serão 150 famílias beneficiadas, mas nem todas estavam presentes. Quem não vai paga o correspondente a dois sacos de cimento. O restante conversa, debate e põe a mão na massa. Algumas mulheres ficam responsáveis por cuidar das crianças, outras fazem questão de ajudar na obra, uma passa mal, mas com certeza era por um bom motivo. Ter sua casa própria. Não importa se é pequena, se demora um ano ou mais pra ficar pronta ou se é em um bairro um pouco distante do centro da cidade. Estas serão suas casas.

A União Estadual por Moradia Popular atua em Goiás na construção de projetos habitacionais junto às comunidades. Até que se dê início a uma obra são pelo menos três anos de reuniões com os futuros proprietários. Os mutirões acontecem em poucas horas em alguns domingos, enquanto serventes trabalham durante a semana. O terreno e o material de construção são comprados com o dinheiro dos moradores. O restante é financiado pela Caixa Econômica. Dez por cento do salário mínimo pago por doze anos é o valor que a população paga.

O projeto do Eldorado Oeste é composto por quatro etapas. Cada uma beneficia 150 famílias e a maioria delas já não precisa mais pagar aluguel, a atuação do movimento ali já está em sua fase final.

Enquanto caminhamos pelas obras, Manoel Divino, um dos coordenadores nacionais, nos explica como funciona tudo. “E a minha casa, onde será?”, pergunta uma mulher. “Qual é a sua?”, responde Manoel. A rua, com lote e número está escrito em um pequeno papel guardado junto a outros documentos. O endereço da futura casa já existe. Tudo isso é acompanhado por um assistente social da Caixa, que faz a chamada dos presentes.

Seu Válter é integrante do movimento. Participava da luta por moradia em Goiânia mesmo antes da existência da União, ainda na década de 70 quando surgia o Jardim Nova Esperança, esse que aparece escrito em um Citybus que circula pela cidade. Seu Válter mora em Trindade e desde 84 já tem sua casa própria. Filósofo e Historiador diz que faz questão de continuar ajudando na luta.

Para conhecer uma casa pronta fomos à residência de dona Noêmia, que mora com a mãe Emília e a neta Fernanda. O convite de casamento da mais nova está na  mesa e passa de mão em mão. Depois de um café percebemos a cara que cada um dá à casa que antes parecia tão igual às outras.

No Eldorado Oeste, que fica depois do Conjunto Vera Cruz II, as ruas são asfaltadas, há energia, água, ônibus, escola, posto de saúde e comércio (tudo isso é claro com todas as deficiências que conhecemos bem). A infra-estrutura do bairro é uma das preocupações da União que busca a construção das casas em setores consolidados e que de fato fazem parte da cidade. Ao contrário do que acontece com os residenciais construídos pela prefeitura. Um exemplo são as casas do Residencial Jardins do Cerrado, distante da cidade o objetivo é valorizar os terrenos que ficam entre o novo bairro e o restante de Goiânia. (Veja localização: http://wikimapia.org/#lat=-16.6725376&lon=-49.4056892&z=14&l=9&m=b)

A luta pela moradia se mostra como mais uma das diversas lutas pelo direito à cidade. Ter acesso, fazer parte, se sentir parte. Acho que as pessoas não querem muito, não é mesmo?

Entre parques e praças

Em 2010 me aproximei da Geografia. Fiz uma especialização no IESA (Instituto de Estudos Sócio-Ambientais), na UFG, uma disciplina em Geografia Cultural, conheci professores e projetos. Desde então, passei a reparar nos lugares pelos quais eu passo, nas cidades onde vou, nas mudanças que acontecem e nem percebemos. Paisagens naturais e culturais que são construídas, descontruídas, reconstruídas. Paisagens que se modificam na mesma velocidade em que as pessoas encaram a vida. Paisagens que compõem nossa rotina, espaços que ocupamos e desocupamos de acordo com os interesses de alguns.

Pensei em tudo isso quando hoje fui fazer caminhada no horto ou Alameda das Rosas ou Zoológico, como preferirem. Depois de muito tempo, talvez um ano, voltei ali e já no caminho percebi algumas mudanças. O prédio que estava sendo construído onde antes era um hospital, já está quase pronto. Tão alto que não é possível ver seu topo sem parar e girar a cabeça para cima como uma criança que vê um pássaro ou um avião (ou quem sabe o super-homem). Apartamentos duplex, na beirada do Lago das Rosas que já há algum tempo está sendo reformado, reestruturado, modificado. No outro lado do Lago outro prédio sendo construído, mas esse ainda está no início. Até mesmo o Teatro Inacabado foi reinaugurado com uma cara nova. O Lago das Rosas está sendo repensado. Não vou entrar aqui na discussão do Zoológico, se deve ou não existir; se deve ou não permanecer ali. Quero apenas falar sobre o Horto.

Falar de praças e parques aqui em Goiânia é falar também sobre especulação imobiliária. A cada novo parque ou área verde construída um mar de prédios ao seu redor. Ou seria a cada mar de prédios que se pretende construir um parque ou área verde aparece? O Parque Flamboyant é um dos exemplos. Prédios cada vez mais caros e luxuosos vão aparecendo e ocupando espaços antes desocupados. Desocupados? Alguém se lembra do que existia antes nos lugares onde hoje estão vários prédios na cidade? Difícil lembrar….

Outro exemplo é o Goiânia 2, indo para o Campus Samambaia da UFG. Um parque foi construído, inaugurado no aniversário de Goiânia e pra mim ainda hoje parece que nunca foi concluído. Acho que esses espaços representam para a (alta?) sociedade goianiense a qualidade de vida da qual tanto se orgulham para descrever a capital. Durante a tarde uma caminhada, um passeio com as crianças, reunião de mães e pais, um breve momento para esquecer todos os outros problemas que existem na cidade, nas cidades.

No Lago das Rosas isso não é diferente. Localizado em um dos m² mais caros de Goiânia, o lugar nunca perdeu seu significado junto à elite goianiense. Mas agora ele está sendo revalorizado. Se antes as pessoas iam ali só pra fazer caminhada, agora elas já podem levar seus filhos para brincar. Na última vez que estive lá estavam em um processo de trocar as grades, abrir a visão para o zoológico. Hoje me deparei com um muro sendo construído do lado contrário à Avenida Anhanguera. Não sei o que pretendem ali. Outra novidade foram os aparelhos fixos para fazer exercícios físicos. Modernos? Bonitos? Nem precisamos mais pagar academia hein. Um personal trainer acompanha seu cliente. Ah, e sabem aqueles quiosques que vendiam água de coco? Pois é, não existem mais. E assim nos sentimos bem e nos orgulhamos da vida saudável que levamos, exercícios físicos, ar livre e o resto? Ah, o resto é o resto.

Histórias no banco da praça

Se você tem tempo para uma boa conversa, quer alguma informação ou simplesmente precisa de um conselho é só ir à Praça Eurico Viana, localizada na República do Líbano com rua 2, no Setor Oeste, e procurar o Seu João Alves de Carvalho, ou se preferir, Seu Joanico.

Para encontrá-lo na praça tem horário certo. De segunda a sexta-feira, de 10 da manhã às 3 da tarde. Não adianta procurá-lo nos fins de semana e feriados, provavelmente ele não estará lá, só quando ele resolve fazer hora extra.

O motivo? Ele está na praça somente no horário de funcionamento dos bancos. A relação dele com os bancos? Bem, há oito meses Seu Joanico deixou sua antiga função de varrer a praça (que depois eu vou explicar o motivo) para vigiar os meninos que vigiam os carros.

Vou explicar. Como nas proximidades da praça têm muitos bancos, muitos carros estacionam pelas ruas e isso atrai os “vigilantes” que querem ganhar seus trocados. Mas esses “vigilantes” também faziam muita sujeira e bagunça na praça, então Seu Joanico resolveu dar um basta nisso.

“Eu disse pra eles que podiam vigiar os carros, mas que não podiam cobrar. Resultado, ninguém mais quis ficar aqui.”

Seu Joanico também ameaçava chamar a polícia quando via alguém badernando na praça. Perguntei se ele não tinha medo de que fizessem algo com ele.

“Se falar que não tenho medo é mentiroso. Se eu ver que vão me bater eu corro.”

Assim Seu Joanico segue sua rotina na praça que fica a apenas alguns metros de sua casa. Casa de muros baixos, um grande jardim muito bem cuidado e seu fusca azul, ano 72, sempre na garagem.

Seu Joanico e a praça

A história de Seu Joanico com a praça começou há mais ou menos oito anos. Além de varrer, tirava o lixo dos lixeiros e pedia para que não deixassem cocô de cachorro ali. Por causa disso passava todo o dia na praça. Segundo ele, quando começou a cuidar muita gente queria que ele parasse.

“Acho que teve gente que ficou com inveja. Aqui arranja muita amizade, mas também muita inimizade.”

Naquela época, segundo ele, a praça era muito desleixada e os meninos de rua faziam muita bagunça. Hoje, realmente, quase não se vê esses meninos. Para Seu Joanico o que está faltando agora é iluminação, mas a praça melhorou muito.

“O difícil não é fazer praça, é zelar.”

Nessa época Seu Joanico tinha mais amizade porque muita gente queria saber quanto ele ganhava. A reposta? Nada! Ele nunca ganhou nada pelo serviço que fazia. Seu Joanico parou de varrer porque, segundo ele, é hora da Prefeitura cuidar e deixá-lo descansar. Hoje, um outro senhor que ele não conhece é quem faz esse serviço. Mas, segundo Seu Joanico, como ele não varre com vassoura fica mal feito.

Enquanto conversávamos na praça, fomos interrompidos várias vezes por alguns conhecidos de Seu Joanico. O assunto das conversas eram a própria praça e a saúde de amigos em comum.

Para ele tudo que se aprende é na escola ou ouvindo os outros, mas quem sabe o que se passa no coração de cada um é só Deus e a própria pessoa quem sabem.

“Para quem eu posso dar bom conselho eu dou, se não fico calado”.

Isso aconteceu quando me despedi de Seu Joanico. Depois de algumas horas de conversa ele me ofereceu um conselho.

“Quando você for se casar, não arruma homem mais novo porque mulher acaba mais rápido e ele vai atrás de outra”.

Sábias palavras, mas mal sabe ele que a jovem aspirante a repórter nem pretende se casar.

Vida

Seu Joanico nasceu no dia 11 de maio de 1927 em uma fazenda a 8 Km de Trindade. Os pais, Gabriel Alves de Carvalho e Florípedes Borges de Carvalho, cuidavam de 15 filhos. Seu Joanico era o quarto. Dos 15 irmãos, sete morreram ainda crianças e hoje eles são apenas quatro vivos.

Quando ele tinha 12 anos, toda a família se mudou para Trindade. Nessa época o pai trabalhava em um gerador a lenha que fornecia energia para parte da cidade, mas só até as dez horas da noite.

“Depois disso ficava todo mundo no escuro.”

Trabalhou como engraxate, como entregador de pão e motorista do caminhão do pai. Mudou-se para Goiânia com a família, onde morou um tempo em Campinas. As datas já não se lembra ao certo. Pediu a Deus para esquecer tudo que aconteceu na sua vida, estes detalhes vão então ficando para trás.

Com 34 anos foi eleito vice-prefeito de José Pinto Magalhães em Trindade pelo antigo PSD. Pelo mesmo partido, Íris Resende foi eleito, em 1965, prefeito em Goiânia, mas o mandato durou até 1969 quando foi cassado pelo regime militar. Algumas coisas não mudaram desde aquela época, como a prefeitura de Goiânia, que mais uma vez está nas mãos de Íris.

“Ele é um bom administrador, teve mais acertos que falhas. Até porque quem não tem falhas é porque nasceu morto”, garante Seu Joanico.

Já a vida política de João Alves de Carvalho durou apenas os cinco anos do único mandato. O vice-prefeito de Trindade, que recebeu mais votos que o prefeito (naquela época a votação era separada), preferiu acompanhar os filhos que iriam iniciar a faculdade na Universidade Federal de Goiás.

Uma das poucas coisas que ainda se lembra ter feito enquanto vice foi ir ao Senado pedir verba. Mas, segundo Seu Joanico, quando se conseguia uma verba, dez por cento tinha que ficar com o Senado. Ainda hoje ele guarda seu diploma de vice.

Hoje, no site da prefeitura de Trindade, Seu Joanico aparece como uma personalidade trindadense:

“JOÃO ALVES DE CARVALHO (JOANICO ALVES)

Nasceu em Trindade, filho de Gabriel Alves de Carvalho e Floripes Borges de Carvalho. Destacou-se como fazendeiro e político, sendo candidato pelo antigo PSD. Proprietário da Fazenda Barro Branco, casado com Doralice de Oliveira, foi vice-prefeito do ilustre Drº José Pinto de Magalhães. Dono de um grande caráter, muito justo e leal, inteligente, perspicaz, observador e trabalhador incansável. Tem vários descendentes que lhe dão muito orgulho.”

Família

Seu Joanico se casou aos 23 anos com Doralice Oliveira de Carvalho, um ano mais velha que ele. Doralice nasceu em Pirenópolis, mas os dois se conheceram em Trindade. Joanico já não se lembra como os dois começaram a namorar. Hoje ele tem um grande carinho pela mulher que cuidou dele durante a vida.

“Hoje eu que cuido dela”.

O casal tem três filhos, Paulo César Carvalho, Paulo Roberto Carvalho e Maria de Fátima Carvalho. Os dois homens, um engenheiro eletricista e o outro civil, são casados e a mulher, que é “desquitada”, há aproximadamente 4 anos se mudou para os Estados Unidos.

No total são dez netos. Paulo César tem três filhos, Paulo Roberto quatro e Maria de Fátima três. Dos bisnetos tem conhecimento de quatro.

Rotina

Aposentado desde 1992, Seu Joanico acorda todos os dias às cinco da manhã e almoça às dez.

“Velho gosta de acordar mais cedo para ficar a toa mais tempo”, brinca.

Todos os dias caminha por uma hora no Bosque dos Buritis. Em casa faz os serviços domésticos. Segundo ele sempre que quiser tem serviço para fazer.

Depois de almoçar vai para a praça onde fica até às 3 da tarde. A mulher, segundo ele, acha bom o tempo que fica fora de casa porque a deixa sossegada.

Doralice não tem amigos e não sai de casa, tem medo. Também não deixa mais ninguém entrar em sua casa. Há um tempo, duas meninas disseram que eram amigas de sua filha, entraram na sua casa e levaram 750 reais.

Enquanto cuida da casa, Doralice tem sempre o rádio sintonizado na Difusora, onde ouve o Padre Marcelo Rossi.

“Não pode mudar a sintonia porque se não ela não encontra de novo”.

Já na televisão os dois assistem à novela de crianças e Malhação, além de duas missas todos os dias. Assistem ao jornal quando está bom, ou seja, quando não tem calamidades. Quando fica muito repetitivo ele muda de canal.

Seu Joanico não vai mais com freqüência à Trindade, só quando morre algum parente. Os parentes mais novos ele nem conhece. Na chácara onde nasceu, na qual mora um de seus filhos, não vai há oito anos.

Às vezes vai à Campinas, onde o pai morreu em 1951, para procurar um supermercado mais barato. Quando não vai comprar, vai para passear. Ao invés de usar seu fusca, prefere ir de ônibus. O automóvel sai da garagem somente para colocar gasolina.

Com uma saúde de ferro, Seu Joanico quase não precisa ir ao médico. O único problema é a pressão alta, mas isto já está controlado.

“Doença é da cabeça da gente. 80% das pessoas que vão ao médico não estão doentes”.

Seu Joanico não sabe dançar, mas gosta de música animada, que tenha letra boa. Apesar de quase não ter acesso, diz gostar muito de tango. No futebol, não torce por nenhum time, mas gosta de assistir a bons dribles, como aqueles feitos por Garrincha, que segundo ele, igual não vai ter mais.

Quem vê este senhor de boina bege sentado na praça todos os dias, nem imagina quantas histórias ele tem para contar. Ninguém imagina que ali está sentado uma personalidade trindadense, um marido que entrega toda sua aposentadoria para a mulher administrar, um pai que acredita que não adianta conseguir muita coisa na vida se os filhos não derem valor e um católico que crê que Deus ou dá dinheiro ou dá saúde e felicidade para uma pessoa, nunca as duas coisas.

Seu Joanico acredita que a sua missão está acabando, já fez tudo que tinha para fazer, por isso não tem medo da morte. Com imagens de Jesus Cristo e Santo Expedito na carteira, ele segue sua rotina esperando o dia em que ela vai acabar. Mas enquanto o fim não chega Seu Joanico segue servindo a população goianiense. Mas só no horário comercial!