É dia de Reis, em Barcelona

Depois de três anos seguidos acompanhando a festa de reis em Juiz de Fora, em 2016 tive que me contentar com fotos e vídeos enviados pelo whatsapp ou vistos no face. Enquanto no Brasil o ápice da festa é o almoço do dia 6 de janeiro, em Barcelona, na Espanha, as pessoas aguardam o famosa Cavalgada dos Reis na noite do dia 5.

Na Espanha, o dia de reis é muito tradicional e festejado principalmente pelas crianças. Antes do monopólio do Papai Noel e sua entrega de presentes no Natal, a tradição era esperar os reis no dia 6 para receber seus pedidos, seguindo a narrativa bíblica, já que os 3 reis entregaram seus presentes a Jesus no dia 6, quando finalmente chegaram à manjedoura.

Aqui as lojas anunciam em suas vitrines a chegada dos reis e fazem promoção para a compra de presentes. Além disso, no dia 6 de janeiro costuma-se dar doces para as crianças, como nosso dia de São Cosme e Damião.

Me parece que na Espanha o dia de Reis é realmente esperado e celebrado em grande parte das famílias, sendo inclusive feriado nacional. Mas enquanto aqui é uma festa mais voltada para crianças, no Brasil o dia de Reis é uma festa dos grupos de folia com suas comunidades, sejam seus bairros ou toda a cidade reunida em almoços e cafés da manhã comunitários. Enquanto na Espanha celebra-se a espera pelos presentes, no Brasil celebra-se o fim do sacrifício empreendido pelos reis magos para encontrar Jesus.

Sobre a cavalgada em Barcelona, é bom destacar que se trata de uma festa institucionalizada, organizada pela prefeitura (No Brasil, muitas folias também recebem apoios institucionais, mas elas continuam tendo um certo protagonismo em relação à festa). É um desfile por ruas pré determinadas que conta com coreografias e pequenos carros alegóricos, algo mais próximo do que nós brasileiros conhecemos como os desfiles de carnaval, por exemplo, guardadas as devidas proporções. É algo para ser visto, diferentemente das folias de reis no Brasil.

Apesar de se chamar cavalgada, apenas a guarda municipal que vai à frente está montada. As pessoas se aglomeram em todo o trajeto, que não é curto, para ver a passagem dos reis. As sacadas e janelas dos apartamentos pelo caminho ficam abarrotadas de gente, com uma vista privilegiada. Do alto, jogam confetes, serpentina e papel picado, dando um colorido a mais no inverno de casacos pretos, cinzas e marrons, em sua maioria. As pessoas levam escadas para as ruas para poderem ver melhor o desfile.

Confesso que não entendi bem o significado de todos os carros do desfile, mas no geral eles estão relacionados aos reis magos e aos presentes. Há um carro das chupetas que, pelo que entendi, é uma tradição as crianças menores se desfazerem delas nessa data. Há também os correios dos reis magos, onde várias pessoas com cestinhas recolhem as cartas das crianças no trajeto com seus pedidos.

As músicas com toque oriental ou africano acompanham os carros dos respectivos reis, já que uma das narrativas criadas mundialmente é que cada rei representa um continente (a América ainda “não existia” quando tal narrativa foi criada). Por fim, dois carros jogam balas para os que acompanham o desfile.

 

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Visita anunciada

O Bairro de Lourdes fica no alto de um dos morros de Juiz de Fora, onde há uma gruta de nome Nossa Senhora de Lourdes, cuja igreja é azul. Segundo o Wikipedia, sua principal avenida possui diversos marcos da Estrada Real. Se antes era a Coroa que se fazia presente no bairro, hoje é um condomínio fechado conhecido como Tiguera.

Para chegar à casa de Domingos, mestre da folia de reis do bairro, era preciso descer no ponto de ônibus depois da escola. Perguntei à mulher sentado ao meu lado se ela sabia qual era esse ponto. “É depois do ponto que eu vou ficar”. Minutos depois entra uma mulher loira, “você pode descer junto com aquela mulher, ela é professora da escola”. Essa informação marcava uma das características dos bairros populares brasileiros: conhecer o outro, a vizinhança. Algo tão difícil em muitos bairros hoje em dia.

Chegando na rua de Domingos, perguntei a um mecânico onde era sua casa. “Aquela ali, no rumo que o táxi está indo, com umas flores em cima do muro, está vendo? Acho que ela é verde.” É o Domingos da Folia né?, perguntei. Sim, era ele. Fui recebida por sua filha mais nova, Débora, simpática e doce. “Estava esperando você ligar perdida quando estivesse chegando”. Domingos se mostrou surpreso por terem dito onde era a casa dele. Talvez seja modéstia, afinal mora ali há tanto tempo, filho de Seu Francino (tão conhecido, também por sua forte atuação na região como espírita) e mestre da folia que seu pai lhe deixou de herança.

A Folia teve início com o pai de Seu Francino, que seguiu a tradição até sua morte. Os documentos dizem que faleceu aos 91 anos, mas a vida lhe dava 99. É conhecida como a Folia do Seu Francino, a mais antiga e conhecida da cidade, segundo Domingos. “É uma honra para qualquer um dizer que já saiu na Folia do meu pai. Por isso que muitos jovens de outros bairros que têm tradição de folia vêm sair no nosso grupo.”

Domingos começou a sair na folia quando tinha 8 anos. Naquele tempo os pais só deixavam participar como mascote as crianças que tinham feito a primeira comunhão. Desde então ele segue a tradição da folia porque gosta, foi criado assim, está acostumado. “Na verdade eu participo da Folia de Reis desde que estava na barriga da minha mãe”.

Domingos, que estudou até o ensino fundamental e hoje tem uma filha psicóloga e mestranda na UFJF, aprendeu os versos e a tocar todos os instrumentos pela convivência com o grupo do pai, que era analfabeto. Lendo a Bíblia percebeu que seu pai cantava os versos exatamente como as passagens bíblicas diziam, mesmo não sabendo ler. Segundo Domingos, o pai continuou o grupo do avô pela tradição e por um promessa que fez por causa de uma perna machucada com a mordida de um cachorro. Sempre que dizia que ia largar a folia a perna inchava e a ferida voltava.

Para ele a folia mudou muito, mas acha importante continuar a tradição. O próprio Domingos às vezes inventa novidades como o ano em que saíram com um capacete de obras, no lugar das coroas. “Eu testei isso porque tem lugar que a gente passa que as crianças jogam pedras, por causa do palhaço mesmo e não imaginam que pode machucar. E também porque é uma época que chove.”

Domingos é o único da família que continua fazendo o giro, mesmo dois anos após a morte do pai. Os outros irmãos faleceram e o único que segue vivo mudou de religião. “Acho que foi pra Assembleia”. Aos 51 anos, aposentado, Domingos mostra a serenidade (que a vida e não a idade lhe trouxe) para falar dos outros grupos e suas mudanças. Para ele, os mestres de folia têm que servir de exemplo, principalmente aos mais novos e para estes não lhe faltam conselhos. “Quando alguém entra no grupo eu digo logo que pode ir no funk, no pagode, pode beber, mas só depois do compromisso com o santo. Quer namorar? Então anota o telefone da garota e liga quando o giro terminar”.

O grupo faz a saída e a chegada na própria casa de Domingos, sempre com refeições que reúnem toda a família e também a vizinhança. “Minhas vizinhas aqui começaram a perguntar como faziam para receber a bandeira, se podiam preparar um lanche, mas como a gente sai e chega da minha casa onde tem a ceia e a refeição de chegada, elas decidiram ajudar com a comida da minha casa, cada uma leva um prato e nos reunimos todos ali.”

Além do bairro de Nossa Senhora de Lourdes, o grupo percorre diversos lugares na cidade, além de ir em municípios próximos como Bias Fortes, Santos Dumond, Matias Barbosa e Ewbenck. Segundo Domingos, aumentou muito o número de pessoas que participam da reza (comandada por suas duas filhas) e que recebem o grupo em suas casas. “Há uns 15 anos era muito difícil.”

O grupo sai com no máximo 13 pessoas, já que precisa estar de acordo com números bíblicos: 13 raios de sol, 12 apóstolos, 11 mil virgens, 10 mandamentos, etc. Para fazer o giro, é necessário ter uma autorização da Delegacia, que hoje fica sob responsabilidade da Associação conseguir. Apesar de não ter material na internet, Domingos repete que está começando a se preocupar com isso, além de começar a juntar o material que sai na imprensa local. Fotos não faltam e a ajuda das filhas também não.

As roupas dos integrantes do grupo são sempre feitas nas cores amarela ou azul. E os enfeites ficam a cargo das mulheres da família, bem como as refeições e a reza (como disse antes). Para esse ano Domingos está pensando em algo diferente. Mas ainda não sabe bem o que é. Em 2012 completam 7 anos que o giro sai e chega na sua casa e ele é o responsável. Pela tradição, quem assume a folia deve permenecer por 7 anos. Apesar de estar terminando de cumprir suas obrigações, Domingos quer continuar, o coração fala mais alto que a sensação de dever cumprido.

Os ensaios acontecem todos os sábados a partir de outubro. “Eles até insistem pra eu começar agora, mas eu fico enrolando até outubro, porque senão não posso nem ir nas festas no sábado”. A reunião semanal é mais uma forma de reunir o grupo, já que ensaio mesmo é só quando tem algum novato na turma.

Antes de ir embora, ao perguntar como se escrevia D’alva, Domingos me contou: “Sabe que essa noite eu sonhei com uma jornalista me fazendo entrevista e me perguntando como se escreve o nome do grupo”. Talvez fosse Seu Francino anunciando minha chegada…

A fé e a criatividade do Carrapatim

Um dos bairros que compõe a zona sul de Juiz de Fora é o Ipiranga. Lá, uma de suas regiões é conhecida como Carrapatim. Dizem que é porque quando começou a ocupação do local havia muito carrapato ali. E é no Carrapatim que se formou o grupo de folia que é composto somente por jovens. Entre 10 e 24 anos, os 23 garotos se preparam para o sétimo ano de giro do grupo.

A idade dos três mestres pode em um primeiro momento, nos fazer imaginar um grupo desorganizado ou envolvido com algumas das brigas de bairro que já aconteceram durante a festa natalina na cidade. Mas depois de uma rápida conversa com os três, percebemos que o título de mestre não é por acaso.

O grupo teve início em 2005, depois que o pai de Marley, um dos mestres, sugeriu que se montasse uma folia no bairro deles. Ele já saía no grupo do mestre Adão (do bairro Bela Aurora, próximo dali) e ensinou ao filho a tocar alguns dos instrumentos da folia, bem como seus versos. Junto com outros garotos, que também participavam das folias de outros bairros, Marley deu início ao grupo.

O grande número de componentes se explica pelo papel do grupo no bairro (ou mais especificamente nas duas ruas próximas à casa de Marley). Eles são todos parentes ou amigos que vivem próximos uns dos outros. O grupo sem dúvida é motivo de orgulho e de inspiração para muitos ali.

Depois de subir uma íngrime ladeira (-Essa é a rua Antônio Moreira? –É, tá procurando quem? –O Marley, da folia. -Ah, é só subir o morro e depois descer, sempre reto) me deparo com uma rua cheia de crianças e jovens, mulheres na calçada. Era uma tarde de sábado. –Você sabe onde mora o Marley, da folia? –Ali, mas ele está lá em cima soltando pipa. Um mestre, jovem, que solta pipa com os outros garotos do Carrapatim.

O grupo é hoje uma forma de reunir amigos. Os ensaios (que começam mensais e depois passam a semanais, quando se aproxima dezembro) acontecem aos sábados pela tarde e às vezes começam de forma espontânea. “Às vezes o pessoal vai chegando aqui pra conversar e quando vemos que está todo mundo começamos a tocar e acabamos ensaiando”.

Os mais velhos ensinam os instrumentos aos mais novos. “A gente reveza, tanto nos instrumentos, como para tocar. Todo mundo sabe tocar mais de um instrumento aqui.” Até foliões de outros bairros procuram os jovens rapazes para aprender algum instrumento. “A gente tá aqui pra ensinar mesmo”.

A Folia do Carrapatim é uma das que mais tem material na internet e seus vídeos têm bastante visualizações. Um deles acredita que muitas das pessoas que assistem são foliões dos outros grupos. Isso porque uma das marcas do grupo é a criatividade. Todo ano algo novo é apresentado. Seja nas letras, nos ritmos ou nas roupas, as mudanças chamam a atenção e mostram como a tradição é a cada dia reinventada. “No outro ano tem um monte de grupo imitando as coisas que a gente inventou. Mas aí já criamos coisas novas.” O encontro de folias no centro da cidade se torna uma maneira de um grupo ver o que outro está fazendo de diferente. Uma competição saudável foi construída de forma espontânea.

Essa característica festiva não faz acabar o caráter religioso. Na noite do dia 24, com a saída da bandeira, é feita a reza do terço na casa de Marley e todos os dias (ao meio-dia e às seis da tarde) os foliões fazem orações à bandeira. Os meninos se consideram católicos não praticantes. “Eu já fui evangélico, mas aí desviei”, conta um deles.

Uma das inovações do grupo é uma batida que eles chamam de marcha que fazem ao chegar em um bairro. Uma forma de chamar a atenção dos moradores e depois que eles são conquistados começam os versos que contam a história da viagem dos 3 reis. “A história é uma só, então o que a gente muda é a resposta, o refrão que é cantado por todos”.

Todo ano o grupo viaja para cidades próximas. Desde 2009 começaram a ir até Valença, a cerca de cem km no estado do Rio de Janeiro. Vão de van no dia 24 (inclusive os pequenos, menores de idade) e voltam caminhando pelas cidades do caminho, fazendo o giro e aproveitando para conhecer novos lugares e pessoas. Para muitos, este é o único momento que saem de Juiz de Fora. “Lá em Valença eles gostam de ver a gente se apresentar porque os grupos de lá são diferentes (uma média de 50 pessoas cada um).”

“E as namoradas?”, pergunto. “Ah, eles não acham bom né, mas entendem porque todos nós começamos a namorar depois que já estávamos no grupo. Então elas aceitaram namorar sabendo que seriam 2º plano na época da Folia.”

O mesmo não pode ser feito com os empregos. Os meninos que trabalham tentam conseguir dispensa no serviço ou ficam sem receber os dias não trabalhados. Mas outros acabam participando do giro somente nos dias em que é feito na cidade. Marley foi um dos que já teve que trocar a viagem com o grupo para trabalhar.

As namoradas, em sua maioria, foram conhecidas durante o giro feito nos outros bairros. “A gente pega o telefone e depois que acaba a Folia a gente liga. Porque durante o giro não pode, tem que ser sério”. E o recado é dado aos mais novos. Os que não querem se dedicar ao grupo ficam de fora. E outros até deixaram de brigar depois que passaram a participar. “Eles aprendem a tocar algum instrumento, aí param de brigar, alguns pararam de mexer com drogas, porque se interessa né?”

Esse ano o grupo quer preparar algo diferente para comemorar os sete anos de existência. “A gente quer fazer uma festa mesmo aqui na rua. Tentar montar um palco, ter música junto com a apresentação da folia, para os moradores daqui. Porque o grupo não é nosso, é do bairro.”

Entre folias e foliões

No domingo, 30 de janeiro, acordei lá pelas 6h e fui para a Matriz de Campinas para o 10º Encontro de Folias de Reis em Goiânia. Quando cheguei ainda estava escuro e a igreja seguia quase vazia. Algumas pessoas ocupavam as primeiras fileiras, enquanto outras acendiam velas para os santos, algumas rezavam ajoelhadas. Lá fora, alguns grupos de folia afinavam suas sanfonas e violas.

Entrei na igreja, peguei meu folheto da missa (um pouco diferente por causa do encontro) e me sentrei na ponta do último banco da segunda fileira. Um senhor chegou perto de mim e me disse: “Licença!” (Já pensei que aquele era um lugar reservado aos foliões) “Eu posso chegar esse banco apra trás? É que eu sento aí (o lugar onde eu estava) todos os dias, mas eu sempre chego o banco para trás, mas como você chegou primeiro eu quero só afastar.” O ajudei a arruamr o banco e me sentei no banco da frente. Ele insistiu para que eu ficasse no lugar e eu lhe disse que pra mim não fazia diferença. Mania, superstição ou tradição? Pensei se ele já havia brigado pro aquele lugar alguma vez. Talvez agora passe a chegar mais cedo na igreja para não perder seu lugar novamente.

Aos poucos a matriz foi se enchendo, as canções e os cantos dos pássaros aumentavam e enchiam também aquele lugar. A missa ficou tão cheia que não havia mais lugar pra todo mundo. Muitas pessoas ficaram em pé, enquanto outras faziam questão de escolher onde iriam se sentar. “Eu gosto de sentar de frente pro Santíssimo”, disse uma senhora que se sentou ao meu lado.

A missa começou com os cantos dos grupos de folia (cada grupo cantou e tocou uma canção diferente) e a entrada dos 3 Reis Magos, uma menina com a estrela do Oriente, e Nossa Senhora empurrando um presépio. “A estrela tem que vir na frente!”. “Se eu fosse presidente desse grupo de folia não deixava uma mulher negra entrar como Nossa Senhora”……

Depois da missa os grupos de folia se apresentaram. Mas antes de começarem, a festa ficou por conta dos palhaços dos grupos que disputavam as moedas que eram jogadas pelas pessoas que ali estavam. O choro, seguido do sorriso era a reação de crianças que viam pela primeira vez essas figuras da folia.

O início das apresentações demorou a começar e um dos motivos do atraso foi a politicagem, que sempre atrapalha. Esperar políticos chegarem, depois esperar políticos falarem  e finalmente a Orquestra Raízes de Pontalina ao som do berrante. As pessoas se amontoavam em pé ao redor da estrutura montada para verem os grupos. Uma senhora sentada ao meu lado me disse que todo ano vai ao Encontro e aproveita o início da conversa pra me contar de sua vida.

Entre crianças, jovens e senhoras a festa tradicional no nosso estado, ocupa novos espaços e ganha novos significados. A cultura popular se transforma e se renova e conquista a atenção dos que estão ali presentes.