Lembranças de uma ex JCA

Estudei no Colégio Estadual Professor José Carlos de Almeida de 1995 a 1999. Soube que a unidade havia sido desativada quando os alunos ocuparam o prédio no final do ano passado. Muita coisa passou pela minha cabeça, em especial as lembranças. Em 2010 ou 2011, voltei a entrar lá pela primeira vez, agora a trabalho, como jornalista, para fazer uma gravação. Vi uma mulher mais velha sentada em uma sala que imaginei que talvez pudesse ser minha professora da 1ª série, Dinorah. Tinha uma vaga semelhança com o semblante que eu tinha em mente. O colégio parecia bem menor do que tinha na lembrança.

Meus irmãos mais velhos também estudaram aí. Na época, só eram oferecidas turmas até a 8ª série (que hoje é 9ª). O ensino médio foi incorporado justamente no ano em que eu entrava na 5ª série e passaria a estudar de manhã. Mas tive que esperar porque com a reorganização das salas, minha turma continuou no turno vespertino. Estudar de manhã era então um sinal de que você estava ficando mais velho, amadurecendo. Continuar a estudar à tarde foi uma frustração.

O trajeto para o colégio no centro da cidade, desde o Jardim América, bairro onde morava, era feito no Chevette, depois substituído por um Passat. E no caminho minha mãe ia parando em todos os pontos de ônibus onde tinha um jovem com a camiseta azul para lhes dar carona. O uniforme tinha a mesma cor da tinta da fachada do colégio.

Na portaria estava Chiquinha, uma mulher mais velha, negra, com cabelos curtos, muito curtos, de óculos de grau. Ela conhecia todos os alunos e nos avisava quando os responsáveis por nos buscar chegavam.

O colégio tem um pátio grande, onde corríamos, jogávamos queimada, pulávamos elástico. Uma vez até tive torcicolo na tentativa de dar um salto quando o nível da brincadeira chega no pescoço. Thábata, Laura, Fernanda, Sarah, Kamylla, eram as amigas que me recordo os nomes. Com Fernanda tenho contato até hoje pelo Facebook, até meu primeiro ano de faculdade ainda saíamos juntas. A Kamylla, reencontrei em 2011, por acaso, quando fui pedir informação em um Studio de pilates perto de casa. Ela estava me atendendo e então perguntou se eu me lembrava dela. Um tempo depois levou uma foto de seu aniversário de 7 anos em que eu estava. Thábata era baixinha, magrinha, do cabelo liso castanho, com franja e óculos, super estudiosa. Fazíamos trabalhos juntas, na minha casa ou na dela. Dos meninos, só me lembro do Luiz Carlos, o mais bonito da turma, moreno, de olhos claros.

Dentro do colégio tinha uma parte com aqueles aparelhos fixos de fazer ginástica presentes nos parques de Goiânia. Lá eu cortei minha cabeça, tentando me pendurar de cabeça para baixo com uma tiara de miçanga na cabeça. Nada grave. Em outro aparelho, cortei a mão quando dedurava um menino aos colegas que brincavam de pique esconde. Esse foi mais grave. Corri para o tanque que tinha embaixo de uma enorme caixa d’água para lavar e resolver sozinha, afinal foi isso que fizeram quando cortei a cabeça. Mas não funcionou. Ligaram para os meus pais e fui para o Hugo, levar uns 10 pontos na mão, os únicos até hoje. Era época de provas e havia machucado justamente a mão que precisava para escrever. A professora avisou na sala que eu era a única que podia responder com letra feia.

Os lanches são uma lembrança à parte. Dois ou quatro alunos eram escolhidos para buscar na cozinha as bandejas com as cumbucas de comida, galinhada era uma delas. Às vezes tinha bolo com iogurt no saquinho ou mesmo suco. Nesses dias fazíamos uma fila na porta da cozinha.

À medida que a idade avançava a quantidade de turmas aumentava. Se antes ia só até a letra B, na 5ª série ia até a letra E.

A localização no centro da cidade era uma grande vantagem. Íamos a pé até o Teatro Goiânia assistir peças de teatro. Me lembro também de uns Jogos Indígenas no Ginásio Rio Vermelho, quando ele ainda funcionava.

Em época de festa junina, cada série preparava a apresentação de uma quadrilha. Os alunos ajudavam vendendo uma espécie de rifa. O desenho que fazia referência à festa tinha uma fogueira com várias chamas. Cada uma custava 50 centavos e à medida que ia vendendo era preciso pintá-las. Quem vendesse mais se tornava a rainha e o rei daquele ano. Consegui esse feito uma vez quando passei de porta em porta no meu prédio que tinha 13 andares com 8 apartamentos em cada.

Uma vez por ano recebíamos a visita também de um grupo de pessoas, com seus jalecos brancos, seus vídeos e seus kits de escovas de dentes. Muito provavelmente eram alunos da UFG na disciplina de saúde coletiva ou algo parecido. Aprendíamos sobre cáries, sobre alimentação, sobre escovação… Por falar em alunos, seja do antigo Magistério ou de alguma licenciatura, sempre tinha também aquele pessoal mais velho, geralmente mulher, que sentava no fundo da sala fazendo suas anotações.

Uma das minhas professoras da 2ª série se chamava Adriana, baixinha, morena, tinha o cabelo liso, preto que ia até a bunda. Na 4ª série foi a vez da Joventilha. Mais velha, rigorosa, tinha métodos de ensino bem dinâmicos. Abandonava por um tempo o livro de ciências sociais, para explicar a História de Goiás. Ensinava matemática com brincadeiras que incluíam árvores e maçãs de papel pregadas no quadro. E a cada resultado de provas dividia a turma em grupos liderados pelo aluno com a nota mais alta que tinha que ajudar os demais colegas. Quando as notas iam subindo, estes alunos se tornavam os líderes de novos grupos. Ela nos fazia ensaiar músicas para apresentar em atividades do colégio. E nesse mesmo ano tivemos o curso do Proerd, ministrado por um policial militar sobre os perigos do uso de drogas, desde álcool e cigarro, até outras mais pesadas. Tinha um livro como material didático e no final teve até formatura do curso, em um ginásio que não me lembro onde era.

Lembranças soltas que de alguma forma fazem parte de mim, da minha história. Que ajudam a compreender o funcionamento do ensino, a criticá-lo, a repensá-lo. Lembranças essas que são perdidas a cada escola fechada e a cada jovem silenciado.

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Pra lá da avenida Noel Rosa

Domingo, 9 horas da manhã. Depois da avenida Noel Rosa, o Conjunto Eldorado Oeste. Algumas famílias se reúnem ali quinzenalmente para acompanharem o andamento da construção de suas casas. No total serão 150 famílias beneficiadas, mas nem todas estavam presentes. Quem não vai paga o correspondente a dois sacos de cimento. O restante conversa, debate e põe a mão na massa. Algumas mulheres ficam responsáveis por cuidar das crianças, outras fazem questão de ajudar na obra, uma passa mal, mas com certeza era por um bom motivo. Ter sua casa própria. Não importa se é pequena, se demora um ano ou mais pra ficar pronta ou se é em um bairro um pouco distante do centro da cidade. Estas serão suas casas.

A União Estadual por Moradia Popular atua em Goiás na construção de projetos habitacionais junto às comunidades. Até que se dê início a uma obra são pelo menos três anos de reuniões com os futuros proprietários. Os mutirões acontecem em poucas horas em alguns domingos, enquanto serventes trabalham durante a semana. O terreno e o material de construção são comprados com o dinheiro dos moradores. O restante é financiado pela Caixa Econômica. Dez por cento do salário mínimo pago por doze anos é o valor que a população paga.

O projeto do Eldorado Oeste é composto por quatro etapas. Cada uma beneficia 150 famílias e a maioria delas já não precisa mais pagar aluguel, a atuação do movimento ali já está em sua fase final.

Enquanto caminhamos pelas obras, Manoel Divino, um dos coordenadores nacionais, nos explica como funciona tudo. “E a minha casa, onde será?”, pergunta uma mulher. “Qual é a sua?”, responde Manoel. A rua, com lote e número está escrito em um pequeno papel guardado junto a outros documentos. O endereço da futura casa já existe. Tudo isso é acompanhado por um assistente social da Caixa, que faz a chamada dos presentes.

Seu Válter é integrante do movimento. Participava da luta por moradia em Goiânia mesmo antes da existência da União, ainda na década de 70 quando surgia o Jardim Nova Esperança, esse que aparece escrito em um Citybus que circula pela cidade. Seu Válter mora em Trindade e desde 84 já tem sua casa própria. Filósofo e Historiador diz que faz questão de continuar ajudando na luta.

Para conhecer uma casa pronta fomos à residência de dona Noêmia, que mora com a mãe Emília e a neta Fernanda. O convite de casamento da mais nova está na  mesa e passa de mão em mão. Depois de um café percebemos a cara que cada um dá à casa que antes parecia tão igual às outras.

No Eldorado Oeste, que fica depois do Conjunto Vera Cruz II, as ruas são asfaltadas, há energia, água, ônibus, escola, posto de saúde e comércio (tudo isso é claro com todas as deficiências que conhecemos bem). A infra-estrutura do bairro é uma das preocupações da União que busca a construção das casas em setores consolidados e que de fato fazem parte da cidade. Ao contrário do que acontece com os residenciais construídos pela prefeitura. Um exemplo são as casas do Residencial Jardins do Cerrado, distante da cidade o objetivo é valorizar os terrenos que ficam entre o novo bairro e o restante de Goiânia. (Veja localização: http://wikimapia.org/#lat=-16.6725376&lon=-49.4056892&z=14&l=9&m=b)

A luta pela moradia se mostra como mais uma das diversas lutas pelo direito à cidade. Ter acesso, fazer parte, se sentir parte. Acho que as pessoas não querem muito, não é mesmo?

Entre folias e foliões

No domingo, 30 de janeiro, acordei lá pelas 6h e fui para a Matriz de Campinas para o 10º Encontro de Folias de Reis em Goiânia. Quando cheguei ainda estava escuro e a igreja seguia quase vazia. Algumas pessoas ocupavam as primeiras fileiras, enquanto outras acendiam velas para os santos, algumas rezavam ajoelhadas. Lá fora, alguns grupos de folia afinavam suas sanfonas e violas.

Entrei na igreja, peguei meu folheto da missa (um pouco diferente por causa do encontro) e me sentrei na ponta do último banco da segunda fileira. Um senhor chegou perto de mim e me disse: “Licença!” (Já pensei que aquele era um lugar reservado aos foliões) “Eu posso chegar esse banco apra trás? É que eu sento aí (o lugar onde eu estava) todos os dias, mas eu sempre chego o banco para trás, mas como você chegou primeiro eu quero só afastar.” O ajudei a arruamr o banco e me sentei no banco da frente. Ele insistiu para que eu ficasse no lugar e eu lhe disse que pra mim não fazia diferença. Mania, superstição ou tradição? Pensei se ele já havia brigado pro aquele lugar alguma vez. Talvez agora passe a chegar mais cedo na igreja para não perder seu lugar novamente.

Aos poucos a matriz foi se enchendo, as canções e os cantos dos pássaros aumentavam e enchiam também aquele lugar. A missa ficou tão cheia que não havia mais lugar pra todo mundo. Muitas pessoas ficaram em pé, enquanto outras faziam questão de escolher onde iriam se sentar. “Eu gosto de sentar de frente pro Santíssimo”, disse uma senhora que se sentou ao meu lado.

A missa começou com os cantos dos grupos de folia (cada grupo cantou e tocou uma canção diferente) e a entrada dos 3 Reis Magos, uma menina com a estrela do Oriente, e Nossa Senhora empurrando um presépio. “A estrela tem que vir na frente!”. “Se eu fosse presidente desse grupo de folia não deixava uma mulher negra entrar como Nossa Senhora”……

Depois da missa os grupos de folia se apresentaram. Mas antes de começarem, a festa ficou por conta dos palhaços dos grupos que disputavam as moedas que eram jogadas pelas pessoas que ali estavam. O choro, seguido do sorriso era a reação de crianças que viam pela primeira vez essas figuras da folia.

O início das apresentações demorou a começar e um dos motivos do atraso foi a politicagem, que sempre atrapalha. Esperar políticos chegarem, depois esperar políticos falarem  e finalmente a Orquestra Raízes de Pontalina ao som do berrante. As pessoas se amontoavam em pé ao redor da estrutura montada para verem os grupos. Uma senhora sentada ao meu lado me disse que todo ano vai ao Encontro e aproveita o início da conversa pra me contar de sua vida.

Entre crianças, jovens e senhoras a festa tradicional no nosso estado, ocupa novos espaços e ganha novos significados. A cultura popular se transforma e se renova e conquista a atenção dos que estão ali presentes.

Entre parques e praças

Em 2010 me aproximei da Geografia. Fiz uma especialização no IESA (Instituto de Estudos Sócio-Ambientais), na UFG, uma disciplina em Geografia Cultural, conheci professores e projetos. Desde então, passei a reparar nos lugares pelos quais eu passo, nas cidades onde vou, nas mudanças que acontecem e nem percebemos. Paisagens naturais e culturais que são construídas, descontruídas, reconstruídas. Paisagens que se modificam na mesma velocidade em que as pessoas encaram a vida. Paisagens que compõem nossa rotina, espaços que ocupamos e desocupamos de acordo com os interesses de alguns.

Pensei em tudo isso quando hoje fui fazer caminhada no horto ou Alameda das Rosas ou Zoológico, como preferirem. Depois de muito tempo, talvez um ano, voltei ali e já no caminho percebi algumas mudanças. O prédio que estava sendo construído onde antes era um hospital, já está quase pronto. Tão alto que não é possível ver seu topo sem parar e girar a cabeça para cima como uma criança que vê um pássaro ou um avião (ou quem sabe o super-homem). Apartamentos duplex, na beirada do Lago das Rosas que já há algum tempo está sendo reformado, reestruturado, modificado. No outro lado do Lago outro prédio sendo construído, mas esse ainda está no início. Até mesmo o Teatro Inacabado foi reinaugurado com uma cara nova. O Lago das Rosas está sendo repensado. Não vou entrar aqui na discussão do Zoológico, se deve ou não existir; se deve ou não permanecer ali. Quero apenas falar sobre o Horto.

Falar de praças e parques aqui em Goiânia é falar também sobre especulação imobiliária. A cada novo parque ou área verde construída um mar de prédios ao seu redor. Ou seria a cada mar de prédios que se pretende construir um parque ou área verde aparece? O Parque Flamboyant é um dos exemplos. Prédios cada vez mais caros e luxuosos vão aparecendo e ocupando espaços antes desocupados. Desocupados? Alguém se lembra do que existia antes nos lugares onde hoje estão vários prédios na cidade? Difícil lembrar….

Outro exemplo é o Goiânia 2, indo para o Campus Samambaia da UFG. Um parque foi construído, inaugurado no aniversário de Goiânia e pra mim ainda hoje parece que nunca foi concluído. Acho que esses espaços representam para a (alta?) sociedade goianiense a qualidade de vida da qual tanto se orgulham para descrever a capital. Durante a tarde uma caminhada, um passeio com as crianças, reunião de mães e pais, um breve momento para esquecer todos os outros problemas que existem na cidade, nas cidades.

No Lago das Rosas isso não é diferente. Localizado em um dos m² mais caros de Goiânia, o lugar nunca perdeu seu significado junto à elite goianiense. Mas agora ele está sendo revalorizado. Se antes as pessoas iam ali só pra fazer caminhada, agora elas já podem levar seus filhos para brincar. Na última vez que estive lá estavam em um processo de trocar as grades, abrir a visão para o zoológico. Hoje me deparei com um muro sendo construído do lado contrário à Avenida Anhanguera. Não sei o que pretendem ali. Outra novidade foram os aparelhos fixos para fazer exercícios físicos. Modernos? Bonitos? Nem precisamos mais pagar academia hein. Um personal trainer acompanha seu cliente. Ah, e sabem aqueles quiosques que vendiam água de coco? Pois é, não existem mais. E assim nos sentimos bem e nos orgulhamos da vida saudável que levamos, exercícios físicos, ar livre e o resto? Ah, o resto é o resto.

Histórias no banco da praça

Se você tem tempo para uma boa conversa, quer alguma informação ou simplesmente precisa de um conselho é só ir à Praça Eurico Viana, localizada na República do Líbano com rua 2, no Setor Oeste, e procurar o Seu João Alves de Carvalho, ou se preferir, Seu Joanico.

Para encontrá-lo na praça tem horário certo. De segunda a sexta-feira, de 10 da manhã às 3 da tarde. Não adianta procurá-lo nos fins de semana e feriados, provavelmente ele não estará lá, só quando ele resolve fazer hora extra.

O motivo? Ele está na praça somente no horário de funcionamento dos bancos. A relação dele com os bancos? Bem, há oito meses Seu Joanico deixou sua antiga função de varrer a praça (que depois eu vou explicar o motivo) para vigiar os meninos que vigiam os carros.

Vou explicar. Como nas proximidades da praça têm muitos bancos, muitos carros estacionam pelas ruas e isso atrai os “vigilantes” que querem ganhar seus trocados. Mas esses “vigilantes” também faziam muita sujeira e bagunça na praça, então Seu Joanico resolveu dar um basta nisso.

“Eu disse pra eles que podiam vigiar os carros, mas que não podiam cobrar. Resultado, ninguém mais quis ficar aqui.”

Seu Joanico também ameaçava chamar a polícia quando via alguém badernando na praça. Perguntei se ele não tinha medo de que fizessem algo com ele.

“Se falar que não tenho medo é mentiroso. Se eu ver que vão me bater eu corro.”

Assim Seu Joanico segue sua rotina na praça que fica a apenas alguns metros de sua casa. Casa de muros baixos, um grande jardim muito bem cuidado e seu fusca azul, ano 72, sempre na garagem.

Seu Joanico e a praça

A história de Seu Joanico com a praça começou há mais ou menos oito anos. Além de varrer, tirava o lixo dos lixeiros e pedia para que não deixassem cocô de cachorro ali. Por causa disso passava todo o dia na praça. Segundo ele, quando começou a cuidar muita gente queria que ele parasse.

“Acho que teve gente que ficou com inveja. Aqui arranja muita amizade, mas também muita inimizade.”

Naquela época, segundo ele, a praça era muito desleixada e os meninos de rua faziam muita bagunça. Hoje, realmente, quase não se vê esses meninos. Para Seu Joanico o que está faltando agora é iluminação, mas a praça melhorou muito.

“O difícil não é fazer praça, é zelar.”

Nessa época Seu Joanico tinha mais amizade porque muita gente queria saber quanto ele ganhava. A reposta? Nada! Ele nunca ganhou nada pelo serviço que fazia. Seu Joanico parou de varrer porque, segundo ele, é hora da Prefeitura cuidar e deixá-lo descansar. Hoje, um outro senhor que ele não conhece é quem faz esse serviço. Mas, segundo Seu Joanico, como ele não varre com vassoura fica mal feito.

Enquanto conversávamos na praça, fomos interrompidos várias vezes por alguns conhecidos de Seu Joanico. O assunto das conversas eram a própria praça e a saúde de amigos em comum.

Para ele tudo que se aprende é na escola ou ouvindo os outros, mas quem sabe o que se passa no coração de cada um é só Deus e a própria pessoa quem sabem.

“Para quem eu posso dar bom conselho eu dou, se não fico calado”.

Isso aconteceu quando me despedi de Seu Joanico. Depois de algumas horas de conversa ele me ofereceu um conselho.

“Quando você for se casar, não arruma homem mais novo porque mulher acaba mais rápido e ele vai atrás de outra”.

Sábias palavras, mas mal sabe ele que a jovem aspirante a repórter nem pretende se casar.

Vida

Seu Joanico nasceu no dia 11 de maio de 1927 em uma fazenda a 8 Km de Trindade. Os pais, Gabriel Alves de Carvalho e Florípedes Borges de Carvalho, cuidavam de 15 filhos. Seu Joanico era o quarto. Dos 15 irmãos, sete morreram ainda crianças e hoje eles são apenas quatro vivos.

Quando ele tinha 12 anos, toda a família se mudou para Trindade. Nessa época o pai trabalhava em um gerador a lenha que fornecia energia para parte da cidade, mas só até as dez horas da noite.

“Depois disso ficava todo mundo no escuro.”

Trabalhou como engraxate, como entregador de pão e motorista do caminhão do pai. Mudou-se para Goiânia com a família, onde morou um tempo em Campinas. As datas já não se lembra ao certo. Pediu a Deus para esquecer tudo que aconteceu na sua vida, estes detalhes vão então ficando para trás.

Com 34 anos foi eleito vice-prefeito de José Pinto Magalhães em Trindade pelo antigo PSD. Pelo mesmo partido, Íris Resende foi eleito, em 1965, prefeito em Goiânia, mas o mandato durou até 1969 quando foi cassado pelo regime militar. Algumas coisas não mudaram desde aquela época, como a prefeitura de Goiânia, que mais uma vez está nas mãos de Íris.

“Ele é um bom administrador, teve mais acertos que falhas. Até porque quem não tem falhas é porque nasceu morto”, garante Seu Joanico.

Já a vida política de João Alves de Carvalho durou apenas os cinco anos do único mandato. O vice-prefeito de Trindade, que recebeu mais votos que o prefeito (naquela época a votação era separada), preferiu acompanhar os filhos que iriam iniciar a faculdade na Universidade Federal de Goiás.

Uma das poucas coisas que ainda se lembra ter feito enquanto vice foi ir ao Senado pedir verba. Mas, segundo Seu Joanico, quando se conseguia uma verba, dez por cento tinha que ficar com o Senado. Ainda hoje ele guarda seu diploma de vice.

Hoje, no site da prefeitura de Trindade, Seu Joanico aparece como uma personalidade trindadense:

“JOÃO ALVES DE CARVALHO (JOANICO ALVES)

Nasceu em Trindade, filho de Gabriel Alves de Carvalho e Floripes Borges de Carvalho. Destacou-se como fazendeiro e político, sendo candidato pelo antigo PSD. Proprietário da Fazenda Barro Branco, casado com Doralice de Oliveira, foi vice-prefeito do ilustre Drº José Pinto de Magalhães. Dono de um grande caráter, muito justo e leal, inteligente, perspicaz, observador e trabalhador incansável. Tem vários descendentes que lhe dão muito orgulho.”

Família

Seu Joanico se casou aos 23 anos com Doralice Oliveira de Carvalho, um ano mais velha que ele. Doralice nasceu em Pirenópolis, mas os dois se conheceram em Trindade. Joanico já não se lembra como os dois começaram a namorar. Hoje ele tem um grande carinho pela mulher que cuidou dele durante a vida.

“Hoje eu que cuido dela”.

O casal tem três filhos, Paulo César Carvalho, Paulo Roberto Carvalho e Maria de Fátima Carvalho. Os dois homens, um engenheiro eletricista e o outro civil, são casados e a mulher, que é “desquitada”, há aproximadamente 4 anos se mudou para os Estados Unidos.

No total são dez netos. Paulo César tem três filhos, Paulo Roberto quatro e Maria de Fátima três. Dos bisnetos tem conhecimento de quatro.

Rotina

Aposentado desde 1992, Seu Joanico acorda todos os dias às cinco da manhã e almoça às dez.

“Velho gosta de acordar mais cedo para ficar a toa mais tempo”, brinca.

Todos os dias caminha por uma hora no Bosque dos Buritis. Em casa faz os serviços domésticos. Segundo ele sempre que quiser tem serviço para fazer.

Depois de almoçar vai para a praça onde fica até às 3 da tarde. A mulher, segundo ele, acha bom o tempo que fica fora de casa porque a deixa sossegada.

Doralice não tem amigos e não sai de casa, tem medo. Também não deixa mais ninguém entrar em sua casa. Há um tempo, duas meninas disseram que eram amigas de sua filha, entraram na sua casa e levaram 750 reais.

Enquanto cuida da casa, Doralice tem sempre o rádio sintonizado na Difusora, onde ouve o Padre Marcelo Rossi.

“Não pode mudar a sintonia porque se não ela não encontra de novo”.

Já na televisão os dois assistem à novela de crianças e Malhação, além de duas missas todos os dias. Assistem ao jornal quando está bom, ou seja, quando não tem calamidades. Quando fica muito repetitivo ele muda de canal.

Seu Joanico não vai mais com freqüência à Trindade, só quando morre algum parente. Os parentes mais novos ele nem conhece. Na chácara onde nasceu, na qual mora um de seus filhos, não vai há oito anos.

Às vezes vai à Campinas, onde o pai morreu em 1951, para procurar um supermercado mais barato. Quando não vai comprar, vai para passear. Ao invés de usar seu fusca, prefere ir de ônibus. O automóvel sai da garagem somente para colocar gasolina.

Com uma saúde de ferro, Seu Joanico quase não precisa ir ao médico. O único problema é a pressão alta, mas isto já está controlado.

“Doença é da cabeça da gente. 80% das pessoas que vão ao médico não estão doentes”.

Seu Joanico não sabe dançar, mas gosta de música animada, que tenha letra boa. Apesar de quase não ter acesso, diz gostar muito de tango. No futebol, não torce por nenhum time, mas gosta de assistir a bons dribles, como aqueles feitos por Garrincha, que segundo ele, igual não vai ter mais.

Quem vê este senhor de boina bege sentado na praça todos os dias, nem imagina quantas histórias ele tem para contar. Ninguém imagina que ali está sentado uma personalidade trindadense, um marido que entrega toda sua aposentadoria para a mulher administrar, um pai que acredita que não adianta conseguir muita coisa na vida se os filhos não derem valor e um católico que crê que Deus ou dá dinheiro ou dá saúde e felicidade para uma pessoa, nunca as duas coisas.

Seu Joanico acredita que a sua missão está acabando, já fez tudo que tinha para fazer, por isso não tem medo da morte. Com imagens de Jesus Cristo e Santo Expedito na carteira, ele segue sua rotina esperando o dia em que ela vai acabar. Mas enquanto o fim não chega Seu Joanico segue servindo a população goianiense. Mas só no horário comercial!